quinta-feira, 27 de setembro de 2012

BERNARD PRINCE



Quando nos referimos a Bernard Prince falamos em aventura em estado puro, como se de cinema se tratasse. Nestes universos propícios à aventura, Hermann e Greg (respectivamente o desenhador e o argumentista da série), dão largas à sua energia criativa: Os homens são duros e de barba rija, sabem aguentar a bebida que ingerem, resolvem  as  suas divergências ao soco, ao tiro de pistola ou de bazooka, suportando todo o tipo de climas ou de relevo…do deserto às selvas tropicais, do fundo dos mares aos rios cheios de sanguessugas. Pelo caminho, os nossos heróis, vão desafiando bandidos de alto gabarito como Bronzen, Sarakélian ou o temível General Satan. Também se cruzam com lindas raparigas (ex. Burma Diego). Em resumo, bate-se, parte-se, bebe-se.
Contudo, o herói, Bernard Prince, está sempre sóbrio, irónico e moralizador (como convém!). Elegante e bem constituído, possui uma moral a toda a prova, que lhe permite olhar de cima para baixo os seus amigos Barney Jordan e El Lobo, inveterados bêbedos, brigões e “bon vivants”. Prince constitui a antítese destes pela sua rectidão de ex-agente da Interpol…um sujeito puro e duro. No entanto, à semelhança de outras criações da nona arte em que o herói por vezes cede a sua fama e protagonismo ao seu parceiro de aventura (ex. Obélix não é tão ou mais estrela que Astérix?!), aqui também as despesas de animação da trama ficam a cargo do colega e velho lobo do mar Barney Jordan que, com todos os seus “defeitos” se encarrega de dar colorido à narrativa roubando, aqui e ali, o papel principal a Bernard Prince, apimentando a história. Prince é o “sério”, quem guarda a cabeça fria e o cérebro do trio (também há um miúdo hindu, de nome Djinn,  que acompanha Jordan e Prince, do qual este último é tutor), mas nem sempre é o pretexto e a espinha dorsal da aventura.
O nosso trio de heróis faz-se deslocar no “Cormoran” (iate recebido em herança por Prince  que o levou a “reformar-se” prematuramente da Interpol), que é não só o veículo mas também o mote para o desencadear da acção. Aliás, o barco constitui uma “quase personagem” pela importância que tem para os heróis e pelo destaque que merece em todas as aventuras.
O que caracteriza a excelência desta banda desenhada é estarmos perante uma banda de acção de ritmo acelerado, suspense, humor, pancadaria, adversários maquiavélicos, personagens truculentas, ternura…acontece tudo!
O desenho de Hermann é imperial, as cores vivas e cintilantes. O rosto dos personagens é vincado com traços profundos que por si só dão vida às vinhetas e densidade emocional à trama.
É difícil distinguir do leque de álbuns que constitui a série Bernard Prince apenas dois ou três títulos, dada a sua excelência, mas não resisto a destacar “O Oásis em Chamas”, “A Fronteira do Inferno” e “A Lei do Furacão”…são um “must”.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

BENOIT BRISEFER (KIM KEBRANOZ)


Este pequeno herói fez a sua aparição na revista Spirou em 15 de Dezembro de 1960, sob a pena de Peyo (Pierre de Culliford), também criador de Johan e Pirlouit (João e Pirolito) e dos Schtroumpfs.
Como todas as crianças, Benoit Brisefer (Kim Kebranoz em português) gosta de jogos, do circo e de guloseimas. Por detrás do seu ar inofensivo esconde-se, contudo, um ser de excepção. Benoit é extremamente forte e nenhum obstáculo humano ou material lhe resiste: arrancar uma porta blindada, colocar uma dezena de gangsters armados KO, saltar muros de vários metros, ou apanhar com as mãos carros e comboios em movimento. Os seus extraordinários dons são postos (como é óbvio) ao serviço do bem e da justiça, princípios que lhe são inculcados na escola pela professora. Benoit é igualmente uma aluno estudioso, aplicado, duma gentileza e educação exemplares. Ele não procura a aventura e quando as forças do mal vêm ter com ele, não são reconhecidas de imediato pois, como todas as crianças, é extremamente ingénuo e desprovido de suspeitas. Contudo, quando identifica acções malévolas tenta imediatamente castigar exemplarmente os transgressores.
As aventuras de Benoit Brisefer podem ser lidas como uma paródia aos super-heróis americanos. Possui a força de Superman e usa (tal como ele) um traje que nunca altera. De facto usa cinco cores que, sendo repartidas, permitem reconstituir as bandeiras da França e da Bélgica: casaco vermelho, calção e boina negra, cachecol azul, camisa branca e cabelos amarelos. À semelhança de Superman, também tem um ponto fraco que coloca em causa a sua invencibilidade: Superman perde os poderes na presença da Kryptonite e Benoit perde a sua incrível força quando se constipa. Por outras palavras, quando não está constipado é implacável e imparável.
Benoit Brisefer é um personagem mais enigmático do que aparenta…nunca ninguém viu os seus pais. Será que os tem? Ou será órfão, como Tintin, órfão por convenção? Sabemos apenas que tem de estar em casa às 18 horas, contudo ignora-se se é esperado pelos pais ou por outra pessoa qualquer. O único adulto com o qual Benoit se relaciona frequentemente é o Sr. Dussiflard, o motorista de táxi, igualmente parceiro de aventuras.
Peyo consegue reunir neste seu personagem uma série de gags de uma comicidade impagável, revelando uma mestria que permite aos leitores de se aproximarem da ingenuidade e candura dos sentimentos das crianças, e do paraíso perdido (para nós adultos)da infância.

domingo, 8 de janeiro de 2012

HUGO PRATT

Hugo Pratt nasceu em Rimini (Itália) a 15 de Junho de 1927. Foi um criador que manteve uma profunda coerência entre a sua vida e a sua obra, podendo-se mesmo afirmar que a sua vida daria um excelente filme ou uma história em quadradinhos de eleição.
O passado de Pratt foi essencial para a sua formação intelectual, já que foi habituado desde muito novo a crescer num meio onde se misturavam várias culturas, raças e credos. A sua juventude teve lugar na Etiópia (o seu pai acabaria por aí morrer prisioneiros dos franceses e Pratt só viria a encontrar a sua campa em 1969). A força das circunstâncias obriga Pratt a voltar para Itália onde ingressou (em 1943) numa academia militar na qual se manteve até à altura da assinatura do armistício. Foi preso pelas SS em Veneza e ingressa, forçado, na polícia marítima, de onde consegue evadir-se, para ingressar no VIII Exército como intérprete às ordens de um coronel belgo-russo. Esta sua experiência como marinheiro possibilitou-lhe o contacto com inúmeras paragens da América do Sul (especialmente a Argentina), continente que serviria de referência e de palco para o desenrolar de muitas histórias de BD donde se destacam as do incomparável Corto Maltese.
Em Abril de 1945, Hugo Pratt entra em Veneza disfarçado de escocês, num blindado canadiano. Desempenha várias funções desde distribuidor de senhas de gasolina a organizador de espectáculos para os soldados. No final da guerra deixa o exército e emprega-se como intérprete no porto de Veneza, cidade que sentimentalmente viria a eleger como sua até à hora da sua morte. É depois destes períodos atribulados que começa a sua carreira como desenhador. Pratt esteve na Argentina desde 1949 a 1962 levando uma vida boémia e trabalhando para inúmeras editoras para as quais desenhou milhares de pranchas. Visitou sucessivas vezes a Patagónia onde colheu ao vivo figuras e cenários para muitas das suas histórias futuras.
Os anos de crise na Argentina levam Hugo Pratt a regressar a Itália, no entanto, passa grandes temporadas na América do Sul (no Brasil vive com famílias negras da Bahia; passa 20 dias com os Índios Xavantes, aventura de que lhe ficará um filho).
Em 1967 surge o primeiro número da revista “Sargento Kirk” contendo uma aventura denominada “Balada do Mar Salgado”, na qual um dos seus personagens se chamava Corto Maltese. A série de Corto Maltese teve o seu boom em 1971 quando a revista “PIF” resolve avançar com a série. Este herói, alter-ego de Pratt, funcionou como referência a inúmeras gerações de apreciadores da Nona Arte.
Algum tempo antes da sua morte, Hugo Pratt trabalhou como argumentista de parceria com Milo Manara, outro desenhador italiano de BD sobejamente conhecido, donde saíram as obras “Verão Índio” e “Gaúcho”.
Hugo Pratt faleceu, vítima de cancro nos intestinos, a 20 de Agosto de 1995.
Para terminar esta homenagem póstuma, deixo as palavras do próprio Hugo Pratt, retiradas de uma das múltiplas entrevistas que concedeu: “Quando encaro a minha vida – e não falo senão por mim – parece-me que o mais importante foi a minha obra. A minha obra é mais importante que todas as mulheres que conheci, mais importante que a história da minha vida, quanto mais não seja porque as minhas experiências se encontram nela, sintetizadas e sublimadas.”