quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

HAGAR, O HORRÍVEL

À semelhança de “Astérix” e “O Feiticeiro de ID” (Wizard of Id, no original), a série criada por Dik Browne (1917 – 1989), Hagar, conseguiu transpor com um estilo humorístico incrivelmente aprimorado os problemas existenciais, políticos, económicos, sociais e psicológicos da classe média dos dias de hoje para uma época situada mais ou menos na idade média, mais concretamente, no tempo das invasões viking à Europa, só que neste caso personificadas por Hagar, o horrível.
O seu autor , Dik Browne, nasceu um Nova York no dia 11 de Agosto do ano de 1917. Como muitos, iniciou-se no cartoonismo jornalístico e na ilustração. Depois de trabalhar algum tempo em publicidade, encontrou-se com Mort Walker em 1954, nesta época já o bem sucedido criador de Beetle Bailey (O Recruta Zero). Durante algum tempo Dik Browne cooperaria com Walker na parte gráfica do Recruta Zero. Até 1973 a dupla manteve-se, aumentando sempre o prestígio de ambos. Foi então que Dik Browne se lançou à sua mais conhecida criação, Hagar, uma série com horizontes amplos e sempre actual graças à actualidade dos temas abordados.
O personagem central, Hagar, é um chefe Viking barbudo, relaxado e beberrão (o alter-ego do próprio criador) que, como todos os seus conterrâneos, vive de saques, pilhagens e outras aventuras pelo mundo antigo. Tem porém um lar na terra dos fiordes, uma esposa (Helga) que não tolera a sua falta de maneiras e educação e dois filhos (Hamlet, sensível, estudioso, avesso à violência e Honi, uma jovem decidida, que sonha tornar-se guerreira como o pai). Mort Walker um dia escreveu o seguinte sobre esta obra de Dik Browne: “Provavelmente nunca houve casamento mais perfeito entre arte e artista do que Dik Browne e a sua criação, Hagar, o Horrível. As atitudes de Hagar diante da vida, as suas maneiras infantis, o seu amor pelo divertimento, o seu apetite descontrolado, são tudo Dik Browne em pessoa.” 

ASTÉRIX

Quem já não ouviu falar da poção mágica, de romanos habituados a levar tabefes, da aldeia dos gauleses insubmissos ao poder de Roma, de um gordo fabricante de menires dono de um cão com a mania da ecologia e de um pequeno guerreiro de longos bigodes loiros? Claro que todos já entenderam que me refiro às aventuras de Astérix o Gaulês.
Astérix nasceu em 1959 na revista francesa “Pilote”, tendo saído o primeiro álbum “Astérix, o Gaulês” em 1961. Criado por René Goscinny (falecido em 1977) e por Albert Uderzo, Astérix foi um herói que muito cedo (1965) viria a atingir fama mundial e o estatuto de coqueluche no mundo da BD, pois para além dos mais de 200 milhões de albúns publicados e traduzidos em todo o mundo, há que contar com várias longas metragens e desenhos animados que levaram o seu nome e os dos seus criadores além do imaginável.
Astérix possui um espírito aventureiro e uma audácia que, sem dúvida, superam em muito a sua baixa estatura e que o impelem a percorrer o globo terrestre em busca de emoções fortes, mas onde o final é sempre feliz e exuberantemente festejado com o inevitável banquete na aldeia. Astérix surge-nos ao longo das suas aventuras como um personagem efervescente, arrebatado (mas prudente) e bom analista de situações difíceis para as quais consegue encontrar sempre as melhores soluções, graças à sua astúcia e inteligência superiores. Devido à poção mágica, o nosso herói é um ser invencível, que não recusa o uso da força de todas as vezes em que a sua inteligência e paciência se mostram ineficazes. É ainda um patriota exaltado, amigo dos seus amigos e possuidor de um conservadorismo exacerbado que se traduz na predilecção por aquilo que é gaulês. Em suma pode-se dizer que é uma fiel transposição do francês médio.
Por tanto falar de Astérix, é importante não esquecer Obélix, o eterno companheiro de aventuras de Astérix, pois não se pode falar de um esquecendo o outro e vice-versa, tratando-se até mesmo de um herói duplo neste caso. Já vimos que é Astérix quem desencadeia a acção, é ele quem decide, em última análise, se se lançarão ou não em determinada aventura, mas é Obélix que lhe dá sabor, imprevisto e excesso, acabando por suplantar o seu companheiro e disputar com ele o papel principal. São características de Obélix a sua incrível força que lhe advém do facto de ele ter caído dentro do caldeirão da poção mágica quando era bebé, a sua enorme susceptibilidade (especialmente quando lhe chamam gordo), vaidade e inveja, que no entanto não impedem de ser afável e de bom coração. Contudo, prima também pela sua ingenuidade (infantil) e falta de clarividência de ideias, pois quase sempre age de forma impulsiva e irreflectida.
Dentro do universo da BD é importante referir ainda que existem bandas desenhadas para cada grupo etário a par com bandas desenhadas mais genéricas, para todos os grupos de idade, onde cada leitor se posiciona na sua leitura consoante a sua maturidade etária e cultural, tal como acontece com Astérix. Nas suas aventuras a compreensão da narrativa deriva do plano físico-intelectual em que o leitor se encontra. Desta forma podemos constatar que uma criança de 11 anos, ao tomar contacto com Astérix, apenas terá sensibilidade para captar o desenho em si e o humor que algumas situações podem desencadear, ao passo que um adulto estará mais apto para compreender os trocadilhos, as piadas indirectas, as alusões históricas e as transposições de situações da época actual para a antiguidade onde se desenrola a acção (engarrafamentos, poluição…). Por tudo isto (e não só), recomendo vivamente a (re)leitura deste expoente máximo da Nona Arte.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CALVIN & HOBBES

Calvin & Hobbes tiveram origem nos daily strips (tiras diárias) dos jornais americanos em Novembro de 1985, vindo rapidamente a transformar-se num enorme e espectacular êxito de BD, chegando a ser distribuído pela Universal Press Syndicate para cerca de 2000 jornais, incluindo o português “Público”.
Calvin é um garoto de cabelo espetado que representa um pouco de todas as crianças, ao apresentar-se com uma criatividade e uma imaginação incrivelmente férteis, que lhe permitem incarnar e viver com intensidade uma variedade de personagens (fabricadas pela sua imaginação) que vão desde o astronauta Spiff, a monstros pré-históricos, animais variados, super heróis, criaturas extra-terrestres e muitas outras formas de vida não identificáveis.
Além do mais este puto é dotado de uma hiperactividade capaz de fazer, em pouco tempo, os cabelos brancos aos seus pais com as suas birras constantes, as más notas na escola, o medo do escuro e dos monstros que possam, durante a noite, “habitar” debaixo da sua cama, e ainda, a agressividade em relação ao mundo feminino simbolizado pela sua “amiga” Susie.
Hobbes, amigo inseparável de Calvin, é um tigre de peluche para o seu pai, mãe e amigos. Porém, a sós com Calvin, Hobbes ganha vida, fala, brinca, aconselha e participa nas aventuras quotidianas deste irrequieto miúdo.
Aparentemente literatura para crianças, esta banda desenhada criada pelo americano Bill Watterson, traduz com uma qualidade surpreendente não só o mundo imaginário das crianças, mas também o mundo dos adultos, criticando com categoria o universo dos crescidos, especialmente por este ser visto e apreciado segundo o prisma e o olhar de um pequeno garoto.
Esta BD teve, nos anos 90, o mesmo impacto que tiveram Charlie Brown e Mafalda há algumas décadas atrás. Trata-se de uma BD que, devido ao enorme número de analogias que apresenta, se destina a um público adulto e esclarecido, mas que não invalida a que as crianças lhe possam ter acesso, pois grande parte das pranchas criadas por Watterson não incluem balões ou literatura inscrita, o que sem dúvida privilegia a expressividade gráfica dos personagens e possibilita um fácil acesso a todos os leitores independentemente da idade que possam ter.

TINTIN

Foi em 1929 que Hergé concebeu o álbum “Tintin no País dos Sovietes” e que deu inicio à saga deste herói, que veio a prolongar-se ao longo de 24 álbuns, sendo o último (Tintin e os Tímpanos) publicado em 1976.
Falecido em 1983 vítima de leucemia, Hergé deixou uma obra mundialmente conhecida não só pelos seus personagens principais (Tintin, Milou, Capitão Haddock, Prof. Tournesol, os Dupond(t), Castafiore, etc), mas também pela enorme variedade de personagens secundárias (cerca de 1000) e lugares exóticos de que, com mestria e pormenor, soube rechear as histórias por si imaginadas.
Tintin é um personagem perfeito sob todos os aspectos, não possuindo a mais pequena fraqueza ou defeito tão vulgares no mais comum dos mortais. Em todas as suas aventuras tem um único objectivo: A eliminação do mal mediante todas as formas em que este se possa apresentar, o que por outras palavras se pode resumir na destruição de tudo aquilo que é repreensível segundo as leis e a moral da sociedade. A perfeição do carácter de Tintin é, ao longo das suas aventuras, contraposta às imperfeições dos seus principais parceiros de aventuras: O domínio de si próprio (contraposto com a impulsividade, irritabilidade e instabilidade do Capitão Haddock), o espírito de aventura (por oposição ao sedentarismo de Milou), a eficácia (contraposta à ineficácia e estupidez dos Dupond(t), a memória (contraposta à distracção de Tournesol) e a rectidão e tenacidade (como formas de “contrariar” a falta de virtuosidade dos vilões que se cruzam no seu caminho).
As aventuras de Tintin são, apesar de velhinhas, uma obra fundamental e um marco da BD, sempre actual para leitores dos “7 aos 77 anos” pois trata-se de aventuras com suspense do início até ao fim, suspense esse que é alternado com gags que se repetem até à última página, sempre com pequenas modificações.
Trata-se muito provavelmente do herói de BD mais estudado, “dissecado” e analisado sob uma multiplicidade de ciências: Sociologia, história, semiótica, física, linguística, psicologia…aliado a um merchandising feroz que o tornou (em parceria com Astérix e Spirou) num dos maiores ícones não só da Nona Arte mas também do Séc. XX.
Por causa desta fórmula de sucesso Hergé deixou não só admiradores da sua obra em todo o mundo, tendo conseguido expressar ao mais alto nível o vigor e capacidade de invenção da banda desenhada europeia.

GARTH

No dia 24 de Julho de 1943, no Daily Mirror de Londrino, iniciava-se a publicação de Garth, uma tira de aventuras que se transformou na mais famosa e duradoura produzida em Inglaterra nos últimos 50 anos. O seu desenhador Stephen P. Dowling (Steve Dowling) já tinha realizado anteriormente tiras de humor para outro jornal de Londrino de grande difusão mas sem o impacto que viria a conseguir junto do público com Garth.
Através de Garth, Dowling conquistou por completo os leitores. O personagem, um “gigante” loiro dotado de grande força física, acompanhado quase sempre por um sábio de nacionalidade francesa chamado Lumière, vivia as suas aventuras em mundos que variavam do real (Oriente, Egipto…) até ao sobrenatural.
Com o passar do tempo Garth foi adquirindo poderes de viajar tanto ao passado como ao futuro, graças aos conhecimentos científicos do seu grande amigo e sábio Lumière.
Em todas as suas aventuras Garth tem, invariavelmente, de enfrentar um vilão e seus esbirros que acabam sempre por sucumbir ante o poder dos seus músculos. As narrativas possuem ainda uma forte componente erótica, pois rara é a aventura em que o nosso herói não seduz ou é seduzido por personagens do sexo feminino com atributos físicos deslumbrantes e que pretendem (em vão) cativar para sempre o amor deste hercúleo herói britânico (há inclusive nas histórias uma Deusa por quem Garth tem uma paixão correspondida que o socorre em muitas aventuras quando a situação se figura sem saída).
A história teve continuidade depois da aposentadoria de Dowling por John Allard, Frank Bellamy e, mais recentemente, por Martin Ashbury.
Falecido em 1981, Steve Dowling deixou para a posteridade um herói de renome mundial que levou o seu talento e criatividade como desenhador aos 4 cantos do planeta.
Em Portugal Garth viveu as suas aventuras especialmente na já extinta (e saudosa) revista “Mundo de Aventuras” e noutras publicações em formato revista de bolso, chegando a ter algumas histórias publicadas pela Editora Futura na colecção “Clássicos da BD”.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

LUCKY LUKE

O cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra já conta 65 anos de existência. Criado em 1946 por Morris, de seu verdadeiro nome Maurice de Bevère (falecido a 16 de Julho de 2001), Lucky Luke tem constituído um estandarte em termos de longevidade na BD franco-belga no que concerne a aventuras tendo por cenário o far-west.
Nascido em 1923, Morris teve o seu primeiro trabalho profissional logo após a 2ª Guerra Mundial, num estúdio de animação que pouco tempo depois faliu, levando Morris a procurar trabalho na Revista “SPIROU”. Em 1947 criou as primeiras páginas de um western cómico “Arizona 1880” que viria a constituir a génese de Lucky Luke e Jolly Jumper, o cavalo falante do herói.
A espantosa carreira de Lucky Luke compreendeu dois períodos. Entre 1947 e 1954, Morris, criou sozinho as aventuras deste simpático cavaleiro andante. Toda a história real e lendária da conquista do Oeste, com os seus “gatos-pingados”, os seus barbeiros franceses, os seus donos de lavandaria chineses, os seus índios e foras da lei…tudo isso é evocado com enorme sentido humorístico, tanto no grafismo como na sátira dos costumes. A partir de 1955, Morris recebeu a contribuição do genial argumentista René Goscinny (argumentista de Astérix). Esta mútua colaboração veio a permitir, por um lado, uma melhoria notória das silhuetas e do carácter dos personagens e, por outro, um evidente acréscimo na qualidade dos “gags” (piadas e situações cómicas) e as referências à actualidade de ontem e de hoje. Inúmeros mitos e personagens famosas do velho oeste serviram para ilustrar as aventuras de Lucky Luke. Aqui podem ser destacados os nomes de Calamity Jane, Jesse James, Billy de Kid, Jerónimo, os Dalton a par de outros tantos mitos reais do cinema (e não só) do Séc XX que “deram a cara” a muitos personagens que “contracenam” com o nosso herói: Jack Palance, David Niven, John Wayne, Louis de Funès, Roy Rogers, Lee Van Cleef, etc.
Em 1957 os autores tiveram a boa ideia de vingar a morte dos irmãos Dalton (mortos por Lucky Luke em 1952), fazendo aparecer “Os Primos Dalton” (Joe, Jack, William e Averell), inimigos jurados de Lucky Luke, os quais, inevitavelmente, acabam por ser conduzidos pelas mãos do nosso herói para a penitenciária, local onde habita outra das grandes criações de Morris – Rantanplan – o cão mais estúpido de todo o Oeste, que consegue rivalizar e competir com os gémeos Dalton em estupidez, incompetência e situações hilariantes.

DICK TRACY

“Plainclothes Tracy” foi um título de BD que muito pouco ou quase nada dirá à maioria dos leitores de histórias aos quadradinhos, no entanto, este foi o nome pelo qual foi inicialmente baptizado um dos maiores detectives de todos os tempos da banda desenhada: Dick Tracy.
Desenhador do “Chicago Tribune”, Chester Gould, o criador de Dick Tracy, começou em 1931 a produzir nas tiras diárias as aventuras deste paladino da lei, inimigo de todos os gangsters e malfeitores, que sempre conseguia dominar graças à sua sagacidade, inteligência e destreza. Não foi preciso muito tempo para que Dick Tracy começasse a ser publicado em mais de 800 jornais em todo o mundo, com um público estimado em mais de 150 milhões de leitores.
Apesar de ser um duro, Dick Tracy era um herói do tipo caseiro (em 1949 casou-se com Tess Trueheart que lhe deu dois filhos), defensor da moral e dos valores da sociedade norte-americana, cujas narrativas se encontravam directamente ligadas com os acontecimentos que na altura ocorriam nos EUA: a lei seca e a proliferação de gangs marginais que espalhavam o terror pelas grandes cidades americanas, com destaque para Chicago.
Para dar autenticidade às suas histórias Chester Gould passava muito tempo na Polícia de Chicago a pesquisar processos e formas de actuar para se familiarizar com os avanços da ciência e da tecnologia ligadas ao ramo da criminologia.
Tracy ao longo de 30 anos de quadradinhos sofreu 27 ferimentos de armas de fogo, foi vítima de contusões, costelas partidas e quase esteve à beira da morte mantendo em suspenso os leitores por um período de três meses. Dick Tracy sobreviveu inclusive a uma centena de vilões incríveis, onde Gould concentrava a sua capacidade caricatural sem perder o ritmo realista da narrativa.
A fama sem precedentes de Dick Tracy levou à sua adaptação a programas de rádio, séries televisivas, culminando com a superprodução da Touchstone/Warner Bros. com Warren Beatty a incarnar o personagem, contribuindo definitivamente para a imortalização deste herói de papel. 

MAFALDA

Joaquim Salvador Lavado, dito Quino, nasceu em 17 de Julho, em Mendonza (Argentina) de pais espanhóis, originários de Fuengirola, Málaga. Quino ficou órfão aos dezasseis anos de idade, herdando e responsabilidade de cuidar de dois irmãos mais novos, situação que o levou a entrar no mercado de trabalho muito cedo. A publicidade foi o “medium” que apadrinhou os primeiros passos de Quino no mundo do trabalho, tendo-lhe sido encomendada a criação de uma família da classe média (da qual fazia parte Mafalda) destinada a promover a venda de aparelhos electrodomésticos que, contudo, viria a ser recusada.
Depois de algum tempo na gaveta, Mafalda surgiria para o mundo em Setembro de 1964, constituindo um caso sério de popularidade causando um impacto mundial cujo êxito se pode equiparar à fama atingida pelos “Peanuts” de Charles Schultz.
Deliciosa, irreverente, implacável e contestatária, Mafalda é a consciência da sua época, funcionando como um barómetro sensível aos acontecimentos do mundo que a rodeia. Criança adulta, rodeada de um grupo de amigos que tal como ela, expressam preocupações que regra geral são apanágio da gente grande: Filipe, uma criança pura e insegura que odeia a escola; Manelinho, preocupado em tornar próspera a mercearia do pai; Miguelinho, em crise de adolescência antecipada; Liberdade, propositadamente uma pequeníssima colega de Mafalda; Susaninha, a menina cuja principal aspiração é casar, ter filhos e dedicar-se inteiramente a um marido com o qual sonha permanentemente; e Gui, o irmão mais novo de Mafalda, que a põe perante o drama de se tornar adulta e igual aos adultos.
Em 1973 Quino desenha as últimas tiras de Mafalda, despedindo-se para sempre desta personagem que permanecerá intocável na memória de milhões de leitores e fãs por este mundo fora.  

JEREMIAH

É num cenário apocalíptico que evolui Jeremiah, personagem sobrevivente dos efeitos da 4ª Guerra Mundial, que deixou o mundo devastado e com os sobreviventes desfasados de quaisquer referências geográficas, culturais e morais. Jeremiah, um jovem feito na dura luta pela sobrevivência, forma com o seu companheiro de viagens Kurdy Malloy, a dupla de heróis vagabundos que deambulam pelas cidades e paisagens caóticas superiormente criadas por Hermann, conhecido criador de séries como Bernard Prince, As Torres de Bois-Maury, Comanche e Jugurtha.
Apesar de perseguidores incansáveis de injustiças e dos eventuais tiranos e assassinos com que deparam, os traços psicológicos dos dois amigos são de uma oposição quase total. Enquanto Jeremiah (como todo o herói que se preze) prima pela justiça, lealdade e pelo horror à violência, Kurdy é matreiro e desconfiado como uma raposa, violento, egoísta, cínico e com um instinto de sobrevivência super desenvolvido…um autêntico senhor cada-um-por-si, sempre envolvido nas situações mais ilegais e obscuras.
Contudo, os valores de Jeremiah e Kurdy articulam-se sempre da melhor forma a superarem as dificuldades encontradas num mundo pleno de hostilidades e comportamentos primitivos onde impera a lei do mais forte. Outro dos elementos a destacar nas aventuras de Jeremiah são as cores flamantes utilizadas por Hermann no decorrer das narrativas que não correspondem às tonalidades reais da natureza, obedecendo à evolução da acção e, em especial, aos sentimentos evidenciados nas vinhetas pelos personagens, constituindo cada prancha um fresco de beleza impressionante.
A série Jeremiah tem sido infelizmente, à semelhança de muitas outras, publicada a espaços pelas editoras nacionais, ficando muitas aventuras por publicar e à margem dos leitores que não dominam a língua francófona…uma pena! 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

SPIROU

Spirou foi e continua a ser um dos mais famosos personagens de banda desenhada produzidos pela escola Franco-Belga, vindo inclusivamente o seu nome a servir de título para uma das mais famosas revistas de BD do mundo: A revista “Spirou”.
Concebido em 1938 por François Robert Velter (Rob-Vel), o personagem iria ser retomado entre 1944 e 1946 por Joseph Gillain (Jijé), que lhe deu a companhia de Fantásio e de Spip, o esquilo. Contudo, Spirou conheceu as suas mais belas aventuras entre 1946 e 1968, fundamentalmente devido a André Franquin. Do seu lápis surgiram personagens que ficaram famosas como o Conde de Champignac (sábio inventor amigo de Spirou e Fantásio), que surge pela primeira vez na aventura “Há um Feiticeiro em Talmorol” (1950); Um animal estranho inventado por Franquin no ano de 1952, o “Marsupilami”, cujo feitio explosivo e costumes são descritos na soberba aventura “O Ninho dos Marsupilamis” (1957); Zantáfio, o primo e inimigo de Fantásio, que aparece diversas vezes, em especial, no albúm “O Ditador e o Cogumelo” onde desempenha o papel de um tirano de opereta; Finalmente o extraordinário Zorglub, versão humorística do sábio louco, e que é o verdadeiro protagonista das aventuras “Z de Zorglub” (1959) e de “A Sombra do Z” (1960). Desde 1969, a série foi “apadrinhada” por Fournier que, apesar de construir histórias agradáveis, não herdou (infelizmente) o poder criador e cómico de Franquin, à semelhança dos actuais desenhadores da série.

TARZAN

O sucesso do romance “Tarzan dos Macacos”, publicado em 1912 por Edgar Rice Burroughs, viria a catapultar Tarzan para o mundo massemediático do Cinema, TV e BD. No cinema, Tarzan viria a ser, pela primeira vez, interpretado por Elmo Lincoln (1918). Outros lhe seguiriam os passos, entre eles um distinguiu-se, o famoso nadador olímpico Johny Weissmuller, que na tela viria a assumir o papel de rei das selvas.
Tarzan foi igualmente um personagem dos primórdios da BD, assim como um dos seus mais famosos e prestigiado representante. Um dos factores que decerto terá contribuído para o sucesso imediato de Tarzan, consistiu em o personagem ter sido desenhado em 1929 (data das primeiras tiras de aventura do “rei dos macacos” onde se verifica inexistência de balões comportando os diálogos das personagens, existindo apenas a narração da acção sobre forma de texto inscrito em cada quadradinho) por Hal Foster, considerado actualmente um autentico “Miguel Ângelo” dos quadradinhos, criador da não menos célebre personagem de banda desenhada “O Príncipe Valente”. Contudo, em 1937, Foster abandona a série e o seu posto é ocupado por Burne Hogarth, outro virtuoso da nona arte, que viria a conferir ao herói criado por Burroughs a sua visualização mais célebre, conseguido retratar graficamente, de forma perfeita, a anatomia atlética de Tarzan nas mais variadas posições.
Desde 1929, com ou sem Jane, Tarzan tem balouçado por muitas lianas, enfrentado inúmeros animais selvagens e inimigos saídos da imaginação fértil dos seus sucessivos desenhadores, constituindo uma verdadeira instituição no âmbito das sucessivas gerações de bedéfilos e cinéfilos por esse mundo fora. Cabe por fim referir que o sucesso alcançado pelo personagem originou ramificações da série surgindo as aventuras de “Korac – Filho de Tarzan”.

BLAKE & MORTIMER

O ano de 1904 foi testemunha do nascimento de um dos expoentes máximos dos desenhadores da escola Franco-Belga: Edgar Pierre Jacobs.
Jacobs iniciou a sua carreira como assistente de Hergé, vindo a colaborar na realização de três conhecidas aventuras de Tintin: “O Ceptro de Otokar”, “O Lótus Azul” e “As Sete Bolas de Cristal”. Para realçar a versatilidade deste “gigante” da Banda Desenhada, assinale-se que, antes de dedicar a sua vida à nona arte, Jacobs tentou carreira no bel canto, chegando a ocupar a posição de barítono na Ópera de Lille (França).
A sua principal criação consistiu numa dupla de heróis – Blake & Mortimer – que se tornou famosa pela prodigiosa fantasia que Jacobs conseguiu transfigurar em todas as aventuras por eles vividas.
Os dois heróis apresentam-se como típicos cidadãos britânicos: Ambos frequentam um gentlemen`s club, sendo que Blake é capitão dos serviços secretos da Scotland Yard e Mortimer, o principal dinamizador das aventuras, um carismático cientista criador do célebre “Espadão” (ler Vol. I e II de “O Segredo do Espadão”).
O sucesso deste duo baseia-se essencialmente na versatilidade do seu criador, que desde sempre primou pelo seu rigor, preciosismo e sofisticação que conseguiu implementar nas aventuras de Blake & Mortimer , aproveitando elementos retirados de lendas da actualidade que sempre seduziram a imaginação dos leitores e do público em geral: as pirâmides do Egipto, a Atlântida, a máquina de viajar no tempo, os extraterrestres, ou a robótica. Podemos afirmar que a imaginação fervilhante de Jacobs conseguiu superar a geografia, o tempo, a arqueologia e o futurismo, conseguindo a imortalidade em marcos da nona arte como “ O Segredo do Espadão I e II” (1950 e 1953); “O Mistério da Grande Pirâmide I e II (1954 e 1955); “A Marca Amarela” (1956); “O Enigma da Atlântida” (1957); SOS Meteoros (1959), onde o nome do nosso país fica associado a um dos mais famosos albúns de todos os tempos da BD; “A Armadilha Diabólica” (1962); “O Caso do Colar” (1967) e “As Três Fórmulas do Professor Sato” (1977) também em dois volumes, sendo o último deles concluído por Bob de Moor, a partir de esboços de Jacobs, em virtude da morte deste último em 1987. Refira-se que o grande espaçamento temporal entre as diversas aventuras criadas por este autor, nada tem a ver com ociosidade mas sim com o rigor, pesquisa e preciosismo que impunha à sua obra, daí a sua enorme qualidade em detrimento da quantidade de publicações.
Em homenagem àquele que considero o maior entre os maiores génios do universo da BD, deixo a descrição que este realizou pela sua própria mão, do perfil destes dois heróis que o imortalizaram: “Mortimer é franco, leal, impulsivo, desdenhando qualquer tipo de compromissos. Intransigente em tudo o que diz respeito à honra e justiça, acontece muitas vezes que esse carácter efervescente e o seu modo de ir direito às coisas o colocam em maus lençóis. Ao contrário de Mortimer, Blake é o símbolo da fleuma britânica. Comparado com o seu amigo, parece frio e distante, dono e senhor das suas reacções. Mas esta insensibilidade aparente fica apenas a dever-se ao seu horror atávico a toda e qualquer manifestação pública dos seus sentimentos”.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

LUC ORIENT

A partir de 1967, Eddy Paape, nos desenhos, e Greg nos textos, vão produzir para a revista Tintin uma série de ficção científica na tradição de Flash Gordon: Luc Orient.
O tipo de BD expresso nesta série assenta numa narrativa onde a imaginação é o ponto forte, mas com maior incidência na forma (alienígenas e planetas de fauna e flora estranhas) mais do que sobre o conteúdo (centrado invariavelmente na eterna luta entre o bem e o mal), materializada na actuação do herói (Luc Orient) contra um vilão, no caso concreto, um ditador extra-terrestre que pretende impor a sua tirania sobre a Terra ou sobre os habitantes de um planeta situado numa galáxia desconhecida.
Orient surge acompanhado por um eminente cientista, Kala, e, como convém, por uma bela jovem de nome Lora. É deste triângulo sabedoria-acção-beleza, personificado pelos três personagens centrais que Paape e Greg conseguiram dinamizar esta série de sucesso que há já longos anos foi publicada pela Bertrand, dando à estampa títulos como: “24 Horas para o Planeta Terra”; “O Segredo das 7 Luzes”; “O Senhor de Terango”, todos protagonizados por Luc Orient, um herói à moda antiga, com uma desenvoltura física e um intelecto capazes de fazer frente às mais intrincadas situações.
Eddy Paape e Greg, ao criarem esta série de qualidade inquestionável obedeceram à chamada “linha clara”, iniciada pelo mestre Hergé (Tintin) e continuada por Edgar P. Jacobs (Blake & Mortimer), cujas características incidiam no carácter realista dos desenhos e na perfeição do traço e das expressões dos personagens.

GASTON LAGAFFE

Grande parte das melhores piadas que até hoje foram desenvolvidas sob a forma de banda desenhada encontram-se, indubitavelmente, nos álbuns de Gaston Lagaffe, o impagável obreiro de broncas e trapalhadas que se seguem sucessivamente sem cessar.
Gaston Lagaffe é uma espécie de “faz-tudo” empregado num escritório e cujo sonho consiste precisamente em não fazer nada…a não ser alguma invenção insólita com consequências sistematicamente desastrosas. Imaginada em 1957 pelo já falecido Franquin, esta sequência de curtas histórias, iniciada no Jornal Spirou, de uma página ou meia página, contém toda uma série de personagens que lhe dá consistência. Além de Fantasio (companheiro inseparável de Spirou), que intervém por vezes, assinale-se ainda Mademoiselle Jeanne, uma secretária apaixonada por Gaston, o agente da polícia Longtarin (um incansável caçador de multas que tem por alvo preferencial o calhambeque de Lagaffe), e o Senhor de Mesmaecker, o homem de negócios que vem, em vão, assinar os contratos aos escritórios da revista Spirou. Não esqueçamos ainda a gaivota gozona, o familiar animal, cujo grito abominável é substituído – nos gabinetes por onde Gaston passa – pelas ondas sonoras e sísmicas produzidas por um instrumento de música de aparência pré-histórica e bárbara, criado pelo génio inventivo do “terrível” Gaston Lagaffe.
Leitura para todos e indispensável para quem gosta de rir a valer.

OS SKROTINHOS

Arnaldo Angeli Filho, criador dos Skrotinhos, é actualmente um dos mais consagrados autores de banda desenhada brasileira. Nascido em Agosto de 1956, começou como cartoonista na revista “Senhor”. Desde 1975 tem trabalhos publicados na “Folha de São Paulo”, onde nas suas tiras diárias desenvolveu personagens que o tornariam muito famoso: Bob Cuspe (o punk escarrador) e Rê Bordosa (a velha junkie).
Na década de 80 iniciou a publicação da revista “Chiclete com Banana” (já publicada no mercado nacional), revista underground, inimiga confessa dos padrões de comportamento em vigor na sociedade, e que deu fôlego enorme aos quadradinhos brasileiros, donde surgiram mais figuras célebres como “Walter Ego”, “Mara Tara” (a incansável devoradora de homens”), “Wood & Stock” (os últimos hippies), “Rigapov” (o idiota do apocalipse), “Meiaoito e Nanico” e os debochados, desavergonhados e amorais “Skrotinhos”.
Estupidamente engraçados, os Skrotinhos formam uma dupla imparável de cafagestes tarados, com os seus diálogos ricos de expressividade pautados por um humor sacana e mundano próprio do calão brasileiro…umas verdadeiras pestes que se recomendam vivamente para quem goste de rir a bandeiras despregadas.
Angeli publica os seus comic-strips em mais de 20 periódicos brasileiros, apresentando-se no contexto mundial como um verdadeiro porta estandarte dos quadradinhos do Brasil, tendo recebido convites para participar nos salões de Angoulème (França), de Prato (Itália) e, em 1992, juntamente com Robert Crumb, Gilbert Shelton, Art Spielgman, Carlos Nine e Miguel Paiva, integrou o grupo americano convidado para a exposição comemorativa dos 500 anos da Descoberta das Américas, no Festival Treviso Comics em Itália.

O JUSTICEIRO

Como se fosse num pesadelo! Num belo dia, quando nada parecia ter hipóteses de correr errado, aconteceu a tragédia. Mas não foi pesadelo, durante um passeio a Central Park, a esposa e os filhos de Frank Castle foram assassinados por um gang Nova-Iorquino. Castle escapou por milagre, assistindo ao extermínio dos entes queridos. Mas o homem que ele era pereceu com a sua família. Em seu lugar ficou o Justiceiro (Punisher), um homem impiedoso e violento com uma ideia fixa…eliminar o crime e os criminosos de forma radical.
Criado em 1974 para contracenar com o Homem-Aranha no nº 129 da revista “Amazing Spider-Man”, o Justiceiro passou imenso tempo em 2º plano no universo Marvel, até que em 1985 as características psicológicas e psicóticas do personagem foram exploradas ao máximo por Steven Grant (argumentista) e Mike Zeck (desenhador), permitindo aproveitar as inúmeras potencialidades deste solitário paladino, de forma a transformá-lo num verdadeiro campeão de vendas. De personagem secundário, o Justiceiro passou a astro principal, ganhando revistas e histórias próprias e conquistando um espaço próprio no competitivo mercado dos quadradinhos norte-americanos.
Grafismo de estilo impressionista baseado no grande plano, com o objectivo claro de demonstrar, pelas emoções e expressões faciais dos personagens, a intensidade da acção e dos sentimentos, a obra de Grant e Zeck consegue retratar superiormente a ira, a violência e a fúria das reacções do Justiceiro.
O Justiceiro apresenta-se assim como uma banda desenhada à boa maneira dos super heróis nitidamente “made in USA”.

sábado, 21 de maio de 2011

OUTRAS CURIOSIDADES DA 9ª ARTE…

Sabia que Hergé para criar o personagem Professor Tournesol se baseou num famoso físico, o Prof. August Piccard, com o qual se cruzou em 1943.
As diferenças mais assinaláveis entre Piccard e Tournesol, estavam patentes na altura: O Prof. Piccard era um gigante de dois metros que exibia um estranho penteado, enquanto a personagem Tournesol é baixote e surdo que nem uma porta. Tal como Tournesol, o Prof. Piccard também era bastante avançado para o seu tempo e tinha bastante jeito para inventar máquinas submarinas ou espaciais.


Edgar Pierre Jacobs foi literalmente um homem dos sete ofícios: Foi cantor lírico (barítono na Ópera de Lille), escultor, romancista, pintor, ilustrador, encenador e criador dos celebérrimos Blake & Mortimer.
Sabia que estes últimos tiveram os seus traços fisionómicos baseados em Jacques Laudy (Blake) e Jacques Van Melkebeke (Mortimer), este último redactor chefe do Jornal Tintin (nos seus inícios), e ambos amigos próximos de Jacobs.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

CURIOSIDADES

Albert Uderzo, desenhador de Astérix, nasceu em 1927 com seis dedos em cada mão, malformação corrigida no primeiro mês de vida, o que pelos vistos já seria um prenúncio do seu enorme talento. Refira-se ainda que Uderzo é também daltónico (não distingue o vermelho do verde), o que deu origem a que as cores dos albúns de Astérix fossem asseguradas, durante vários anos, pelo seu irmão Marcel Uderzo.

Em Julho de 2006, Milo Manara desenhou um capacete para o campeão de motociclismo Valentino Rossi, feito especialmente para o Grande Prémio de Itália, em Mugello.

O pseudónimo Morris (Maurice de Bévère, criador de Lucky Luke, falecido em 16 de Julho de 2001), resultou da pronúncia do seu primeiro nome: Maurice.

O pseudónimo Hergé (criador do globalmente famoso personagem Tintin), foi formado com base nas iniciais do seu verdadeiro nome: Georges Rémy (Rémy, Georges), RG = Hergé.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

HOMEM-ARANHA

Foi no ano de 1962 que Stan Lee, criou aquele que viria a constituir a maior revelação de todos os tempos do universo dos comics americanos: O incrível Homem-Aranha.
Poderia tratar-se (à semelhança de muitos outros) de apenas mais um herói no vasto universo MARVEL, mas constitui uma figura de proa, verdadeiramente emblemática, no seio dessa categoria de seres de ficção que nos habituámos a conhecer como super-heróis.
Decerto toda a gente conhece a génese deste herói: o adolescente Peter Parker, órfão a viver ao cuidado dos tios, aluno brilhante de físico-química, ao assistir a uma experiência científica é picado por uma aranha radioactiva que o vai dotar de poderes especiais: força e agilidade sobre-humanas; o sentido de aranha (uma espécie de sexto sentido que o adverte dos perigos), capacidade de subir qualquer parede ou tecto (ao estilo das aranhas); dar saltos espectaculares; e, como Peter Parker é um “teen” génio, consegue conceber um lança teias que lhe permite deslocar-se pela cidade e utilizar para imobilizar os seus oponentes, quer se tratem de vulgares gangsters ou super-vilões que, de igual modo, ficaram gravados no imaginário social: Dr. Octopus; Duende Verde; o Lagarto; Kraven; Rhino, o Escorpião, etc.
Visto assim nada de novo, apenas mais um super-herói saído da mente brilhante do seu criador a juntar-se a tantos outros já em actividade nas páginas dos comics. Contudo, o que torna este herói tão especial aos olhos de miúdos e de graúdos é a possibilidade de estabelecimento de um paralelismo entre as aventuras do seu alter ego (Peter Parker) com a vida do leitor, tornando fácil a este último identificar-se com o herói aracnídeo, pois são tantos os traços psicológicos da personagem que o aproximam do comum dos mortais. Senão vejamos: Peter Parker é um jovem comum que por acidente recebe a dádiva dos superpoderes, é um rapaz tímido, gozado pelos colegas de liceu por ser marrão e um aluno genial, tem problemas em lidar com as raparigas, depois da morte do tio tem de cuidar da tia (doente do coração) e, simultaneamente, ser o ganha-pão da casa, razão pela qual se transforma em fotógrafo freelancer do Jornal Daily Mirror.
Resumindo, trata-se de um herói que tem problemas reais que o fazem descer do pedestal de divindade para “caminhar” na selva urbana como mais um de nós, preocupando-se em pagar a renda da casa, ir visitar a tia ao hospital, chegar a horas ao encontro com a namorada e, nas horas vagas evitar o descarrilamento de um trem, lutar contra ameaças alienígenas, super-vilões ou outros mestres do crime.
Em síntese Peter Parker/Homem-Aranha poderia ser qualquer um de nós se fossemos picados por uma aranha carregada de radioactividade. É esta dialéctica psicológica, este jogo de emoções, entre Peter e o seu alter ego, na tentativa de tentar conciliar a sua humanidade com a sua sobrehumanidade, que o tornam numa das mais brilhante criações do universo dos quadradinhos.
Os criadores do personagem souberam aumentar a verosimilhança do Homem-Aranha com a realidade, destaque-se o facto de o herói envelhecer ao longo dos anos, casar com Mary Jane Watson e ter um filho com esta, ocorrências que uma vez mais reforçam a já referida proximidade e um constante “piscar de olhos” ao leitor que facilmente se identifica com este grande herói do universo dos quadradinhos.   

sábado, 16 de abril de 2011

AS LEITURAS DA BANDA

A banda desenhada sempre foi uma forma de expressão em consonância com o seu tempo, com um sentido de observação profundo das mudanças sociais, das relações interpessoais, dos progressos da ciência, tomando partido e intervindo quer nos conflitos nacionais quer internacionais.
Ao lermos uma banda desenhada que atravesse grande parte do séc. XX, como por exemplo Tintin, constatamos na perfeição o progresso da humanidade e as ideias vigentes ao longo do tempo: a evolução e modernização dos diversos meios de transporte, os preconceitos, esteriótipos existentes em determinada época e em relação a determinados povos, as curiosidades científicas e os enigmas da altura (ex. ida à Lua o Yeti…).
Noutras BD`s vemos a utilização de heróis e super-heróis na luta contra a ameaça nazi ou contra regimes ditatoriais, reais ou fictícios, personalizados por vilões ou super-vilões, com o intuito de destruir ou dominar o mundo (ex. Capitão América e Bucky, Super-Homem, Batman, Buck Danny, etc), actuando os heróis como arquétipos (soma de aspirações do homem comum) e como catarse para as frustrações do dia-a-dia. Aliás, a banda desenhada de acção constitui por excelência o tipo mais comum de todos os géneros de BD existentes no mundo, não só a mais emblemática mas também aquela que mais motiva a compra por parte da grande maioria dos aficionados da nona arte, precisamente pelos mecanismos de evasão que proporciona aos comuns mortais, dando a possibilidade de, durante a leitura, vestirmos a pele de um ser supremo, intocável e invencível representado pelo herói.
Quando o cenário terrestre nos parece esgotado, eis que a BD nos transporta em naves intergalácticas para mundos extraterrestres, realidades paralelas, apresentando aos nossos olhos tecnologias, monstros e povos saídos do mais profundo delírio da imaginação humana.
A plasticidade caricatural conseguida pelas BD`s cómicas, os gags e as trapalhadas mais ou menos rebuscadas permitem, através do riso, desmistificar situações por vezes complicadas do nosso quotidiano (ex. ser multado pela polícia, levar uma repreensão do chefe, ser despedido ou até atropelado), dando a hipótese de rirmos de forma salutar daquilo que na vida real não tem nenhuma piada, permitindo abstrairmo-nos da nossa própria condição humana.
Por último refiro ainda o caso das BD`s “psicológicas”, onde a nona arte explora de forma inteligente e picaresca as relações humanas, os afectos, a sexualidade, o casamento, a relação entre as diferentes gerações, entre muitas outras fases da vida e do desenvolvimento humano. Temos exemplos paradigmáticos destes tipos de banda desenhada: Peanuts, Pogo, Calvin & Hobbes, Mafalda, Hagar, Andy Capp, etc., onde através do recurso à comicidade se mergulha profundo na “psique” humana.
Em suma através da BD conseguimos literalmente vermo-nos ao espelho.
Desde o seu aparecimento em finais do séc. XIX até aos dias de hoje, conseguimos encontrar, nos milhões de pranchas e vinhetas produzidas ao longo dos anos, um retrato fiel, aqui e ali deturpado (mas isso também faz parte da arte), da evolução humana nas suas múltiplas facetas e dimensões, constituindo um fresco de imagens tão vasto que, à semelhança de uma máquina do tempo, nos pode transportar para o passado, analisar o presente e projectar o nosso futuro.

terça-feira, 12 de abril de 2011

A BD, O CINEMA E A TV

A Banda Desenhada (BD) compõe-se por um universo de heróis, aventuras e cenários criados por talentosos desenhadores e argumentistas que deslumbraram diversas gerações e que tiveram o condão de possibilitar momentos da mais pura evasão, sonho, catarse e divulgação de arquétipos a variadas gerações de leitores.
A capacidade de mentalmente lermos as aventuras aos quadradinhos, inventarmos a voz do(s) nosso(s) herói(s), de estabelecermos a ligação entre o espaço e a acção decorrida entre duas vinhetas (elipse), as onomatopeias que povoam os balões e que recriam os mais diversos sons e a capacidade de transportarmos connosco essa aventura em estado puro no bolso de trás das calças para os espaços de lazer da nossa preferência, fizeram da BD algo único e irreproduzível para os outros Meios de Comunicação de Massas.
O cinema e a televisão cedo se aperceberam do potencial da BD, especialmente pelo impacto que esta última teve juntos dos públicos mais jovens, como terreno fértil para a “apropriação” quer de heróis quer de argumentos para o universo das imagens em movimento.
Nos primeiros tempos do cinema, quando os efeitos especiais ainda não eram dotados das capacidades e potencial que actualmente exibem, os heróis “clonados” da BD para o grande ecrã, consistiam em heróis baseados na força física e no poder dos seus socos, cujas aventuras se desenrolavam no velhinho planeta Terra, e que apenas necessitavam do recurso a alguns duplos para a execução das cenas mais arrojadas. Foi a época de Tarzan, Zorro, Batman e Robin, Fantasma, Príncipe Valente, entre tantos outros.
Com o desenvolvimento das tecnologias cinematográficas, já foram dados passos largos em direcção a mundos extraterrestres e a cenários mais elaborados, surgindo nas telas heróis como: Flash Gordon, Barbarella, Superman (que era colocado na posição horizontal quando voava e o cenário projectado criava a sensação de movimento), Dick Tracy, etc.
A partir do final dos anos 70 do século passado, graças ao já mencionado desenvolvimento dos efeitos especiais, o cinema começa a aceder de forma galopante a heróis cuja adaptabilidade ao grande ecrã seria algo de impensável nos primeiros três quartéis do século XX, refiro-me concretamente aos Universos Marvel e DC Comics importados dos comics dos EUA, em que a aplicação de efeitos especiais criados e aprimorados pelos computadores, permitiram realizar o que antes era inconcebível, recriando algo que até então só podia ser vislumbrado no universo dos quadradinhos: Os saltos e as teias do Homem-Aranha; O voo e a força do Super-Homem; A versatilidade dos membros do Quarteto Fantástico; As garras de Wolverine; A armadura do Homem de Ferro; O Batmobile e a planóplia de gadjets do Batman; Os raios ópticos do Ciclope; A habilidade de alterar os elementos da Ororo…isto já para não falar de heróis da velha Europa como Astérix, Obélix ou Tintin (que vai surgir em breve nos cinemas pela mão de Steven Spielberg).
Apesar da interpenetrabilidade dos mundos da BD e do Cinema/TV e da espectacularidade visual com que estes já nos conseguem surpreender, existe algo muito próprio da Banda Desenhada que é inacessível ao mundo das imagens em movimento, que se forma na dialéctica que o leitor consegue criar com a vinheta/prancha e no dinamismo que consegue criar com a imagem estática, na relação que estabelece com o herói (uma espécie de clientelismo), com os cenários onde este se move e decorre a acção, que no fundo é animada pelo olhar do leitor através do seu diálogo com o papel impresso.
Quantas vezes não ficámos desiludidos com a transposição dos nossos heróis de papel para o ecrã? A desilusão pode vir, por exemplo, da discrepância física do herói da fita em relação ao do papel (ex. Michael Keaton, um actor franzino e de baixa estatura, no papel de Batman); da impossibilidade de recriar a plasticidade ou comicidade dos heróis de papel para os do cinema (apesar dos avanços da tecnologia); ou ainda da pobreza dos cenários cinematográficos idealizados para terreno onde se move o herói. Tudo isto é notório porque ao lermos uma BD temos nós próprios, a partir da história que nos é apresentada, a possibilidade de realizarmos o nosso próprio “filme” pois interpretamos as imagens e descodificamos os conteúdos à nossa própria maneira e ao discorrer da nossa imaginação, e isso nenhum realizador de cinema, nem nenhum efeito especial, consegue reproduzir.

domingo, 10 de abril de 2011

O mercado nacional da BD

O mercado nacional, no que respeita à publicação de banda desenhada (BD) Franco-Belga, continua a não acertar com os íntimos desejos dos bedéfilos. Continuamos a assistir ao encetar de séries que não têm a devida sequência ou onde a mesma se encontra enormemente desfasada em termos temporais, tornando impossível conhecer a maturação do grafismo do autor e a evolução psicológica dos personagens principais e secundárias.
Quantas séries em álbum já foram iniciadas cujo final (ou a respectiva continuação) ainda não conheceu a luz do dia? Quantos heróis em quadradinhos existem nas estantes dos coleccionadores e nos escaparates das livrarias, que desconhecem a forma como se irão livrar dos golpes, das ciladas e das invenções maquiavélicas que os respectivos vilões lhes vão preparar? A resposta é: MUITOS.
As editoras sucedem-se (não vou citar nomes) mas o panorama não muda…séries por concluir, leitores defraudados acrescento eu. Dizem que as histórias em álbum muitas vezes não têm sequência porque os direitos das mesmas foram adquiridos por outras editoras nacionais (algumas até já faliram) e como tal não é possível assegurar a continuação, algo que considero inaceitável e ofensivo para quem começou a coleccionar as séries sem sequência (ex. Thorgal, Jeremiah, Adéle Blanc-Sec, Lefranc, Tanguy e Laverdure, Buddy Longway, Largo Winch, XIII, Peter Pan, isto só para relembrar alguns dos há muito esquecidos e que constituem heróis/séries de top nos seus países de origem).
Na minha opinião, as editoras nacionais que se dedicam à BD, numa lógica de potenciação de lucros e de públicos, iniciam várias séries formato álbum relativas a diferentes heróis, para ver quais são os que geram maiores receitas e aceitação por parte dos leitores, depois, seguindo uma lógica puramente economicista vão “esquecendo” as que não têm tanto sucesso comercial (que não terão o respectivo “à suivre”), defraudando expectativas a quem as adquiriu e lhes soube dar o devido valor. Não observo (pelo menos não conheço) estudos sérios promovidos pelas editoras, para avaliar quais os heróis e séries de BD mais queridos/pretendidos pelo público da 9ª Arte? Quais as séries iniciadas que os leitores pretendem ver concluídas? Quem compra BD em Portugal? Quantos livros lê em média por mês? Quanto gastam por mês em BD e quanto estariam dispostos a gastar caso o mercado satisfizesse as suas necessidades literárias? Quem é o leitor de BD? Qual a sua faixa etária e nível de escolaridade? Qual o formato preferido das edições: álbum, revista? São apenas algumas das muitas questões cujas respostas deveriam ser procuradas pelas editoras nacionais de BD, antes da publicação de séries de banda desenhada. Poderão argumentar que tais estudos de mercado são caros mas por certo sairá mais oneroso ficar com os livros em stock (e mais tarde vender ao desbarato) e criar leitores descontentes que vão pensar várias vezes antes de encetar a colecção X ou Y. Outra hipótese consistiria em apostar principalmente em séries denominadas “One Shot” (que iniciam e terminam apenas num álbum), mas esta opção condicionaria o acesso ao conhecimento e divulgação de heróis e séries de enorme qualidade que se desenvolvem ao longo de vários álbuns.
Sei que o mercado editorial da BD nacional em nada é comparável, por exemplo, ao Francês ou Espanhol, mas se continuarmos nesta senda qualquer dia, quando entrarmos numa livraria portuguesa, só conseguiremos encontrar nas estantes os álbuns dos heróis que toda a gente conhece e já leu, e que continuam a constituir pela enésima vez as apostas das editoras, como são os casos de Astérix, Tintin, Lucky Luke, Spirou, Blake & Mortimer e que, sem margem para dúvida constituem um óptimo cartão de visita para a 9ª Arte …mas, e os outros?!!
O universo da BD é diversificado e rico, é importante dar a conhecê-lo de uma forma séria, sem hiatos ou quebras nas publicações que vão sendo iniciadas e onde o sucesso das editoras no mercado irá ter de ser baseado na recriação de uma imagem credível perante o consumidor de BD, isto para que não se verifique uma descontinuidade entre a oferta e a procura, que acaba por ser compensada pela compra das obras na sua língua original, hipotecando a chance de construção de um mercado nacional da 9ª Arte mais forte e sustentável.

Aventura ao Quadrado

O Blog Aventura ao Quadrado é destinado a todos os amantes, coleccionadores, estudiosos e curiosos da Banda Desenhada (BD), igualmente conhecida por Nona Arte.
Nele poderão vir a encontrar pequenos artigos/reflexões pessoais sobre: Heróis da BD; História da BD; Desenhadores e Argumentistas; Relação da BD com os outros Meios de Comunicação de Massas; Mercado Editorial da BD; assim como todo o tipo de curiosidades relacionadas com a Nona Arte, com especial incidência na banda desenhada Franco-Belga e nos Comics dos EUA.