quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

HAGAR, O HORRÍVEL

À semelhança de “Astérix” e “O Feiticeiro de ID” (Wizard of Id, no original), a série criada por Dik Browne (1917 – 1989), Hagar, conseguiu transpor com um estilo humorístico incrivelmente aprimorado os problemas existenciais, políticos, económicos, sociais e psicológicos da classe média dos dias de hoje para uma época situada mais ou menos na idade média, mais concretamente, no tempo das invasões viking à Europa, só que neste caso personificadas por Hagar, o horrível.
O seu autor , Dik Browne, nasceu um Nova York no dia 11 de Agosto do ano de 1917. Como muitos, iniciou-se no cartoonismo jornalístico e na ilustração. Depois de trabalhar algum tempo em publicidade, encontrou-se com Mort Walker em 1954, nesta época já o bem sucedido criador de Beetle Bailey (O Recruta Zero). Durante algum tempo Dik Browne cooperaria com Walker na parte gráfica do Recruta Zero. Até 1973 a dupla manteve-se, aumentando sempre o prestígio de ambos. Foi então que Dik Browne se lançou à sua mais conhecida criação, Hagar, uma série com horizontes amplos e sempre actual graças à actualidade dos temas abordados.
O personagem central, Hagar, é um chefe Viking barbudo, relaxado e beberrão (o alter-ego do próprio criador) que, como todos os seus conterrâneos, vive de saques, pilhagens e outras aventuras pelo mundo antigo. Tem porém um lar na terra dos fiordes, uma esposa (Helga) que não tolera a sua falta de maneiras e educação e dois filhos (Hamlet, sensível, estudioso, avesso à violência e Honi, uma jovem decidida, que sonha tornar-se guerreira como o pai). Mort Walker um dia escreveu o seguinte sobre esta obra de Dik Browne: “Provavelmente nunca houve casamento mais perfeito entre arte e artista do que Dik Browne e a sua criação, Hagar, o Horrível. As atitudes de Hagar diante da vida, as suas maneiras infantis, o seu amor pelo divertimento, o seu apetite descontrolado, são tudo Dik Browne em pessoa.” 

ASTÉRIX

Quem já não ouviu falar da poção mágica, de romanos habituados a levar tabefes, da aldeia dos gauleses insubmissos ao poder de Roma, de um gordo fabricante de menires dono de um cão com a mania da ecologia e de um pequeno guerreiro de longos bigodes loiros? Claro que todos já entenderam que me refiro às aventuras de Astérix o Gaulês.
Astérix nasceu em 1959 na revista francesa “Pilote”, tendo saído o primeiro álbum “Astérix, o Gaulês” em 1961. Criado por René Goscinny (falecido em 1977) e por Albert Uderzo, Astérix foi um herói que muito cedo (1965) viria a atingir fama mundial e o estatuto de coqueluche no mundo da BD, pois para além dos mais de 200 milhões de albúns publicados e traduzidos em todo o mundo, há que contar com várias longas metragens e desenhos animados que levaram o seu nome e os dos seus criadores além do imaginável.
Astérix possui um espírito aventureiro e uma audácia que, sem dúvida, superam em muito a sua baixa estatura e que o impelem a percorrer o globo terrestre em busca de emoções fortes, mas onde o final é sempre feliz e exuberantemente festejado com o inevitável banquete na aldeia. Astérix surge-nos ao longo das suas aventuras como um personagem efervescente, arrebatado (mas prudente) e bom analista de situações difíceis para as quais consegue encontrar sempre as melhores soluções, graças à sua astúcia e inteligência superiores. Devido à poção mágica, o nosso herói é um ser invencível, que não recusa o uso da força de todas as vezes em que a sua inteligência e paciência se mostram ineficazes. É ainda um patriota exaltado, amigo dos seus amigos e possuidor de um conservadorismo exacerbado que se traduz na predilecção por aquilo que é gaulês. Em suma pode-se dizer que é uma fiel transposição do francês médio.
Por tanto falar de Astérix, é importante não esquecer Obélix, o eterno companheiro de aventuras de Astérix, pois não se pode falar de um esquecendo o outro e vice-versa, tratando-se até mesmo de um herói duplo neste caso. Já vimos que é Astérix quem desencadeia a acção, é ele quem decide, em última análise, se se lançarão ou não em determinada aventura, mas é Obélix que lhe dá sabor, imprevisto e excesso, acabando por suplantar o seu companheiro e disputar com ele o papel principal. São características de Obélix a sua incrível força que lhe advém do facto de ele ter caído dentro do caldeirão da poção mágica quando era bebé, a sua enorme susceptibilidade (especialmente quando lhe chamam gordo), vaidade e inveja, que no entanto não impedem de ser afável e de bom coração. Contudo, prima também pela sua ingenuidade (infantil) e falta de clarividência de ideias, pois quase sempre age de forma impulsiva e irreflectida.
Dentro do universo da BD é importante referir ainda que existem bandas desenhadas para cada grupo etário a par com bandas desenhadas mais genéricas, para todos os grupos de idade, onde cada leitor se posiciona na sua leitura consoante a sua maturidade etária e cultural, tal como acontece com Astérix. Nas suas aventuras a compreensão da narrativa deriva do plano físico-intelectual em que o leitor se encontra. Desta forma podemos constatar que uma criança de 11 anos, ao tomar contacto com Astérix, apenas terá sensibilidade para captar o desenho em si e o humor que algumas situações podem desencadear, ao passo que um adulto estará mais apto para compreender os trocadilhos, as piadas indirectas, as alusões históricas e as transposições de situações da época actual para a antiguidade onde se desenrola a acção (engarrafamentos, poluição…). Por tudo isto (e não só), recomendo vivamente a (re)leitura deste expoente máximo da Nona Arte.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CALVIN & HOBBES

Calvin & Hobbes tiveram origem nos daily strips (tiras diárias) dos jornais americanos em Novembro de 1985, vindo rapidamente a transformar-se num enorme e espectacular êxito de BD, chegando a ser distribuído pela Universal Press Syndicate para cerca de 2000 jornais, incluindo o português “Público”.
Calvin é um garoto de cabelo espetado que representa um pouco de todas as crianças, ao apresentar-se com uma criatividade e uma imaginação incrivelmente férteis, que lhe permitem incarnar e viver com intensidade uma variedade de personagens (fabricadas pela sua imaginação) que vão desde o astronauta Spiff, a monstros pré-históricos, animais variados, super heróis, criaturas extra-terrestres e muitas outras formas de vida não identificáveis.
Além do mais este puto é dotado de uma hiperactividade capaz de fazer, em pouco tempo, os cabelos brancos aos seus pais com as suas birras constantes, as más notas na escola, o medo do escuro e dos monstros que possam, durante a noite, “habitar” debaixo da sua cama, e ainda, a agressividade em relação ao mundo feminino simbolizado pela sua “amiga” Susie.
Hobbes, amigo inseparável de Calvin, é um tigre de peluche para o seu pai, mãe e amigos. Porém, a sós com Calvin, Hobbes ganha vida, fala, brinca, aconselha e participa nas aventuras quotidianas deste irrequieto miúdo.
Aparentemente literatura para crianças, esta banda desenhada criada pelo americano Bill Watterson, traduz com uma qualidade surpreendente não só o mundo imaginário das crianças, mas também o mundo dos adultos, criticando com categoria o universo dos crescidos, especialmente por este ser visto e apreciado segundo o prisma e o olhar de um pequeno garoto.
Esta BD teve, nos anos 90, o mesmo impacto que tiveram Charlie Brown e Mafalda há algumas décadas atrás. Trata-se de uma BD que, devido ao enorme número de analogias que apresenta, se destina a um público adulto e esclarecido, mas que não invalida a que as crianças lhe possam ter acesso, pois grande parte das pranchas criadas por Watterson não incluem balões ou literatura inscrita, o que sem dúvida privilegia a expressividade gráfica dos personagens e possibilita um fácil acesso a todos os leitores independentemente da idade que possam ter.

TINTIN

Foi em 1929 que Hergé concebeu o álbum “Tintin no País dos Sovietes” e que deu inicio à saga deste herói, que veio a prolongar-se ao longo de 24 álbuns, sendo o último (Tintin e os Tímpanos) publicado em 1976.
Falecido em 1983 vítima de leucemia, Hergé deixou uma obra mundialmente conhecida não só pelos seus personagens principais (Tintin, Milou, Capitão Haddock, Prof. Tournesol, os Dupond(t), Castafiore, etc), mas também pela enorme variedade de personagens secundárias (cerca de 1000) e lugares exóticos de que, com mestria e pormenor, soube rechear as histórias por si imaginadas.
Tintin é um personagem perfeito sob todos os aspectos, não possuindo a mais pequena fraqueza ou defeito tão vulgares no mais comum dos mortais. Em todas as suas aventuras tem um único objectivo: A eliminação do mal mediante todas as formas em que este se possa apresentar, o que por outras palavras se pode resumir na destruição de tudo aquilo que é repreensível segundo as leis e a moral da sociedade. A perfeição do carácter de Tintin é, ao longo das suas aventuras, contraposta às imperfeições dos seus principais parceiros de aventuras: O domínio de si próprio (contraposto com a impulsividade, irritabilidade e instabilidade do Capitão Haddock), o espírito de aventura (por oposição ao sedentarismo de Milou), a eficácia (contraposta à ineficácia e estupidez dos Dupond(t), a memória (contraposta à distracção de Tournesol) e a rectidão e tenacidade (como formas de “contrariar” a falta de virtuosidade dos vilões que se cruzam no seu caminho).
As aventuras de Tintin são, apesar de velhinhas, uma obra fundamental e um marco da BD, sempre actual para leitores dos “7 aos 77 anos” pois trata-se de aventuras com suspense do início até ao fim, suspense esse que é alternado com gags que se repetem até à última página, sempre com pequenas modificações.
Trata-se muito provavelmente do herói de BD mais estudado, “dissecado” e analisado sob uma multiplicidade de ciências: Sociologia, história, semiótica, física, linguística, psicologia…aliado a um merchandising feroz que o tornou (em parceria com Astérix e Spirou) num dos maiores ícones não só da Nona Arte mas também do Séc. XX.
Por causa desta fórmula de sucesso Hergé deixou não só admiradores da sua obra em todo o mundo, tendo conseguido expressar ao mais alto nível o vigor e capacidade de invenção da banda desenhada europeia.

GARTH

No dia 24 de Julho de 1943, no Daily Mirror de Londrino, iniciava-se a publicação de Garth, uma tira de aventuras que se transformou na mais famosa e duradoura produzida em Inglaterra nos últimos 50 anos. O seu desenhador Stephen P. Dowling (Steve Dowling) já tinha realizado anteriormente tiras de humor para outro jornal de Londrino de grande difusão mas sem o impacto que viria a conseguir junto do público com Garth.
Através de Garth, Dowling conquistou por completo os leitores. O personagem, um “gigante” loiro dotado de grande força física, acompanhado quase sempre por um sábio de nacionalidade francesa chamado Lumière, vivia as suas aventuras em mundos que variavam do real (Oriente, Egipto…) até ao sobrenatural.
Com o passar do tempo Garth foi adquirindo poderes de viajar tanto ao passado como ao futuro, graças aos conhecimentos científicos do seu grande amigo e sábio Lumière.
Em todas as suas aventuras Garth tem, invariavelmente, de enfrentar um vilão e seus esbirros que acabam sempre por sucumbir ante o poder dos seus músculos. As narrativas possuem ainda uma forte componente erótica, pois rara é a aventura em que o nosso herói não seduz ou é seduzido por personagens do sexo feminino com atributos físicos deslumbrantes e que pretendem (em vão) cativar para sempre o amor deste hercúleo herói britânico (há inclusive nas histórias uma Deusa por quem Garth tem uma paixão correspondida que o socorre em muitas aventuras quando a situação se figura sem saída).
A história teve continuidade depois da aposentadoria de Dowling por John Allard, Frank Bellamy e, mais recentemente, por Martin Ashbury.
Falecido em 1981, Steve Dowling deixou para a posteridade um herói de renome mundial que levou o seu talento e criatividade como desenhador aos 4 cantos do planeta.
Em Portugal Garth viveu as suas aventuras especialmente na já extinta (e saudosa) revista “Mundo de Aventuras” e noutras publicações em formato revista de bolso, chegando a ter algumas histórias publicadas pela Editora Futura na colecção “Clássicos da BD”.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

LUCKY LUKE

O cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra já conta 65 anos de existência. Criado em 1946 por Morris, de seu verdadeiro nome Maurice de Bevère (falecido a 16 de Julho de 2001), Lucky Luke tem constituído um estandarte em termos de longevidade na BD franco-belga no que concerne a aventuras tendo por cenário o far-west.
Nascido em 1923, Morris teve o seu primeiro trabalho profissional logo após a 2ª Guerra Mundial, num estúdio de animação que pouco tempo depois faliu, levando Morris a procurar trabalho na Revista “SPIROU”. Em 1947 criou as primeiras páginas de um western cómico “Arizona 1880” que viria a constituir a génese de Lucky Luke e Jolly Jumper, o cavalo falante do herói.
A espantosa carreira de Lucky Luke compreendeu dois períodos. Entre 1947 e 1954, Morris, criou sozinho as aventuras deste simpático cavaleiro andante. Toda a história real e lendária da conquista do Oeste, com os seus “gatos-pingados”, os seus barbeiros franceses, os seus donos de lavandaria chineses, os seus índios e foras da lei…tudo isso é evocado com enorme sentido humorístico, tanto no grafismo como na sátira dos costumes. A partir de 1955, Morris recebeu a contribuição do genial argumentista René Goscinny (argumentista de Astérix). Esta mútua colaboração veio a permitir, por um lado, uma melhoria notória das silhuetas e do carácter dos personagens e, por outro, um evidente acréscimo na qualidade dos “gags” (piadas e situações cómicas) e as referências à actualidade de ontem e de hoje. Inúmeros mitos e personagens famosas do velho oeste serviram para ilustrar as aventuras de Lucky Luke. Aqui podem ser destacados os nomes de Calamity Jane, Jesse James, Billy de Kid, Jerónimo, os Dalton a par de outros tantos mitos reais do cinema (e não só) do Séc XX que “deram a cara” a muitos personagens que “contracenam” com o nosso herói: Jack Palance, David Niven, John Wayne, Louis de Funès, Roy Rogers, Lee Van Cleef, etc.
Em 1957 os autores tiveram a boa ideia de vingar a morte dos irmãos Dalton (mortos por Lucky Luke em 1952), fazendo aparecer “Os Primos Dalton” (Joe, Jack, William e Averell), inimigos jurados de Lucky Luke, os quais, inevitavelmente, acabam por ser conduzidos pelas mãos do nosso herói para a penitenciária, local onde habita outra das grandes criações de Morris – Rantanplan – o cão mais estúpido de todo o Oeste, que consegue rivalizar e competir com os gémeos Dalton em estupidez, incompetência e situações hilariantes.

DICK TRACY

“Plainclothes Tracy” foi um título de BD que muito pouco ou quase nada dirá à maioria dos leitores de histórias aos quadradinhos, no entanto, este foi o nome pelo qual foi inicialmente baptizado um dos maiores detectives de todos os tempos da banda desenhada: Dick Tracy.
Desenhador do “Chicago Tribune”, Chester Gould, o criador de Dick Tracy, começou em 1931 a produzir nas tiras diárias as aventuras deste paladino da lei, inimigo de todos os gangsters e malfeitores, que sempre conseguia dominar graças à sua sagacidade, inteligência e destreza. Não foi preciso muito tempo para que Dick Tracy começasse a ser publicado em mais de 800 jornais em todo o mundo, com um público estimado em mais de 150 milhões de leitores.
Apesar de ser um duro, Dick Tracy era um herói do tipo caseiro (em 1949 casou-se com Tess Trueheart que lhe deu dois filhos), defensor da moral e dos valores da sociedade norte-americana, cujas narrativas se encontravam directamente ligadas com os acontecimentos que na altura ocorriam nos EUA: a lei seca e a proliferação de gangs marginais que espalhavam o terror pelas grandes cidades americanas, com destaque para Chicago.
Para dar autenticidade às suas histórias Chester Gould passava muito tempo na Polícia de Chicago a pesquisar processos e formas de actuar para se familiarizar com os avanços da ciência e da tecnologia ligadas ao ramo da criminologia.
Tracy ao longo de 30 anos de quadradinhos sofreu 27 ferimentos de armas de fogo, foi vítima de contusões, costelas partidas e quase esteve à beira da morte mantendo em suspenso os leitores por um período de três meses. Dick Tracy sobreviveu inclusive a uma centena de vilões incríveis, onde Gould concentrava a sua capacidade caricatural sem perder o ritmo realista da narrativa.
A fama sem precedentes de Dick Tracy levou à sua adaptação a programas de rádio, séries televisivas, culminando com a superprodução da Touchstone/Warner Bros. com Warren Beatty a incarnar o personagem, contribuindo definitivamente para a imortalização deste herói de papel. 

MAFALDA

Joaquim Salvador Lavado, dito Quino, nasceu em 17 de Julho, em Mendonza (Argentina) de pais espanhóis, originários de Fuengirola, Málaga. Quino ficou órfão aos dezasseis anos de idade, herdando e responsabilidade de cuidar de dois irmãos mais novos, situação que o levou a entrar no mercado de trabalho muito cedo. A publicidade foi o “medium” que apadrinhou os primeiros passos de Quino no mundo do trabalho, tendo-lhe sido encomendada a criação de uma família da classe média (da qual fazia parte Mafalda) destinada a promover a venda de aparelhos electrodomésticos que, contudo, viria a ser recusada.
Depois de algum tempo na gaveta, Mafalda surgiria para o mundo em Setembro de 1964, constituindo um caso sério de popularidade causando um impacto mundial cujo êxito se pode equiparar à fama atingida pelos “Peanuts” de Charles Schultz.
Deliciosa, irreverente, implacável e contestatária, Mafalda é a consciência da sua época, funcionando como um barómetro sensível aos acontecimentos do mundo que a rodeia. Criança adulta, rodeada de um grupo de amigos que tal como ela, expressam preocupações que regra geral são apanágio da gente grande: Filipe, uma criança pura e insegura que odeia a escola; Manelinho, preocupado em tornar próspera a mercearia do pai; Miguelinho, em crise de adolescência antecipada; Liberdade, propositadamente uma pequeníssima colega de Mafalda; Susaninha, a menina cuja principal aspiração é casar, ter filhos e dedicar-se inteiramente a um marido com o qual sonha permanentemente; e Gui, o irmão mais novo de Mafalda, que a põe perante o drama de se tornar adulta e igual aos adultos.
Em 1973 Quino desenha as últimas tiras de Mafalda, despedindo-se para sempre desta personagem que permanecerá intocável na memória de milhões de leitores e fãs por este mundo fora.  

JEREMIAH

É num cenário apocalíptico que evolui Jeremiah, personagem sobrevivente dos efeitos da 4ª Guerra Mundial, que deixou o mundo devastado e com os sobreviventes desfasados de quaisquer referências geográficas, culturais e morais. Jeremiah, um jovem feito na dura luta pela sobrevivência, forma com o seu companheiro de viagens Kurdy Malloy, a dupla de heróis vagabundos que deambulam pelas cidades e paisagens caóticas superiormente criadas por Hermann, conhecido criador de séries como Bernard Prince, As Torres de Bois-Maury, Comanche e Jugurtha.
Apesar de perseguidores incansáveis de injustiças e dos eventuais tiranos e assassinos com que deparam, os traços psicológicos dos dois amigos são de uma oposição quase total. Enquanto Jeremiah (como todo o herói que se preze) prima pela justiça, lealdade e pelo horror à violência, Kurdy é matreiro e desconfiado como uma raposa, violento, egoísta, cínico e com um instinto de sobrevivência super desenvolvido…um autêntico senhor cada-um-por-si, sempre envolvido nas situações mais ilegais e obscuras.
Contudo, os valores de Jeremiah e Kurdy articulam-se sempre da melhor forma a superarem as dificuldades encontradas num mundo pleno de hostilidades e comportamentos primitivos onde impera a lei do mais forte. Outro dos elementos a destacar nas aventuras de Jeremiah são as cores flamantes utilizadas por Hermann no decorrer das narrativas que não correspondem às tonalidades reais da natureza, obedecendo à evolução da acção e, em especial, aos sentimentos evidenciados nas vinhetas pelos personagens, constituindo cada prancha um fresco de beleza impressionante.
A série Jeremiah tem sido infelizmente, à semelhança de muitas outras, publicada a espaços pelas editoras nacionais, ficando muitas aventuras por publicar e à margem dos leitores que não dominam a língua francófona…uma pena! 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

SPIROU

Spirou foi e continua a ser um dos mais famosos personagens de banda desenhada produzidos pela escola Franco-Belga, vindo inclusivamente o seu nome a servir de título para uma das mais famosas revistas de BD do mundo: A revista “Spirou”.
Concebido em 1938 por François Robert Velter (Rob-Vel), o personagem iria ser retomado entre 1944 e 1946 por Joseph Gillain (Jijé), que lhe deu a companhia de Fantásio e de Spip, o esquilo. Contudo, Spirou conheceu as suas mais belas aventuras entre 1946 e 1968, fundamentalmente devido a André Franquin. Do seu lápis surgiram personagens que ficaram famosas como o Conde de Champignac (sábio inventor amigo de Spirou e Fantásio), que surge pela primeira vez na aventura “Há um Feiticeiro em Talmorol” (1950); Um animal estranho inventado por Franquin no ano de 1952, o “Marsupilami”, cujo feitio explosivo e costumes são descritos na soberba aventura “O Ninho dos Marsupilamis” (1957); Zantáfio, o primo e inimigo de Fantásio, que aparece diversas vezes, em especial, no albúm “O Ditador e o Cogumelo” onde desempenha o papel de um tirano de opereta; Finalmente o extraordinário Zorglub, versão humorística do sábio louco, e que é o verdadeiro protagonista das aventuras “Z de Zorglub” (1959) e de “A Sombra do Z” (1960). Desde 1969, a série foi “apadrinhada” por Fournier que, apesar de construir histórias agradáveis, não herdou (infelizmente) o poder criador e cómico de Franquin, à semelhança dos actuais desenhadores da série.

TARZAN

O sucesso do romance “Tarzan dos Macacos”, publicado em 1912 por Edgar Rice Burroughs, viria a catapultar Tarzan para o mundo massemediático do Cinema, TV e BD. No cinema, Tarzan viria a ser, pela primeira vez, interpretado por Elmo Lincoln (1918). Outros lhe seguiriam os passos, entre eles um distinguiu-se, o famoso nadador olímpico Johny Weissmuller, que na tela viria a assumir o papel de rei das selvas.
Tarzan foi igualmente um personagem dos primórdios da BD, assim como um dos seus mais famosos e prestigiado representante. Um dos factores que decerto terá contribuído para o sucesso imediato de Tarzan, consistiu em o personagem ter sido desenhado em 1929 (data das primeiras tiras de aventura do “rei dos macacos” onde se verifica inexistência de balões comportando os diálogos das personagens, existindo apenas a narração da acção sobre forma de texto inscrito em cada quadradinho) por Hal Foster, considerado actualmente um autentico “Miguel Ângelo” dos quadradinhos, criador da não menos célebre personagem de banda desenhada “O Príncipe Valente”. Contudo, em 1937, Foster abandona a série e o seu posto é ocupado por Burne Hogarth, outro virtuoso da nona arte, que viria a conferir ao herói criado por Burroughs a sua visualização mais célebre, conseguido retratar graficamente, de forma perfeita, a anatomia atlética de Tarzan nas mais variadas posições.
Desde 1929, com ou sem Jane, Tarzan tem balouçado por muitas lianas, enfrentado inúmeros animais selvagens e inimigos saídos da imaginação fértil dos seus sucessivos desenhadores, constituindo uma verdadeira instituição no âmbito das sucessivas gerações de bedéfilos e cinéfilos por esse mundo fora. Cabe por fim referir que o sucesso alcançado pelo personagem originou ramificações da série surgindo as aventuras de “Korac – Filho de Tarzan”.

BLAKE & MORTIMER

O ano de 1904 foi testemunha do nascimento de um dos expoentes máximos dos desenhadores da escola Franco-Belga: Edgar Pierre Jacobs.
Jacobs iniciou a sua carreira como assistente de Hergé, vindo a colaborar na realização de três conhecidas aventuras de Tintin: “O Ceptro de Otokar”, “O Lótus Azul” e “As Sete Bolas de Cristal”. Para realçar a versatilidade deste “gigante” da Banda Desenhada, assinale-se que, antes de dedicar a sua vida à nona arte, Jacobs tentou carreira no bel canto, chegando a ocupar a posição de barítono na Ópera de Lille (França).
A sua principal criação consistiu numa dupla de heróis – Blake & Mortimer – que se tornou famosa pela prodigiosa fantasia que Jacobs conseguiu transfigurar em todas as aventuras por eles vividas.
Os dois heróis apresentam-se como típicos cidadãos britânicos: Ambos frequentam um gentlemen`s club, sendo que Blake é capitão dos serviços secretos da Scotland Yard e Mortimer, o principal dinamizador das aventuras, um carismático cientista criador do célebre “Espadão” (ler Vol. I e II de “O Segredo do Espadão”).
O sucesso deste duo baseia-se essencialmente na versatilidade do seu criador, que desde sempre primou pelo seu rigor, preciosismo e sofisticação que conseguiu implementar nas aventuras de Blake & Mortimer , aproveitando elementos retirados de lendas da actualidade que sempre seduziram a imaginação dos leitores e do público em geral: as pirâmides do Egipto, a Atlântida, a máquina de viajar no tempo, os extraterrestres, ou a robótica. Podemos afirmar que a imaginação fervilhante de Jacobs conseguiu superar a geografia, o tempo, a arqueologia e o futurismo, conseguindo a imortalidade em marcos da nona arte como “ O Segredo do Espadão I e II” (1950 e 1953); “O Mistério da Grande Pirâmide I e II (1954 e 1955); “A Marca Amarela” (1956); “O Enigma da Atlântida” (1957); SOS Meteoros (1959), onde o nome do nosso país fica associado a um dos mais famosos albúns de todos os tempos da BD; “A Armadilha Diabólica” (1962); “O Caso do Colar” (1967) e “As Três Fórmulas do Professor Sato” (1977) também em dois volumes, sendo o último deles concluído por Bob de Moor, a partir de esboços de Jacobs, em virtude da morte deste último em 1987. Refira-se que o grande espaçamento temporal entre as diversas aventuras criadas por este autor, nada tem a ver com ociosidade mas sim com o rigor, pesquisa e preciosismo que impunha à sua obra, daí a sua enorme qualidade em detrimento da quantidade de publicações.
Em homenagem àquele que considero o maior entre os maiores génios do universo da BD, deixo a descrição que este realizou pela sua própria mão, do perfil destes dois heróis que o imortalizaram: “Mortimer é franco, leal, impulsivo, desdenhando qualquer tipo de compromissos. Intransigente em tudo o que diz respeito à honra e justiça, acontece muitas vezes que esse carácter efervescente e o seu modo de ir direito às coisas o colocam em maus lençóis. Ao contrário de Mortimer, Blake é o símbolo da fleuma britânica. Comparado com o seu amigo, parece frio e distante, dono e senhor das suas reacções. Mas esta insensibilidade aparente fica apenas a dever-se ao seu horror atávico a toda e qualquer manifestação pública dos seus sentimentos”.