quarta-feira, 20 de abril de 2011

HOMEM-ARANHA

Foi no ano de 1962 que Stan Lee, criou aquele que viria a constituir a maior revelação de todos os tempos do universo dos comics americanos: O incrível Homem-Aranha.
Poderia tratar-se (à semelhança de muitos outros) de apenas mais um herói no vasto universo MARVEL, mas constitui uma figura de proa, verdadeiramente emblemática, no seio dessa categoria de seres de ficção que nos habituámos a conhecer como super-heróis.
Decerto toda a gente conhece a génese deste herói: o adolescente Peter Parker, órfão a viver ao cuidado dos tios, aluno brilhante de físico-química, ao assistir a uma experiência científica é picado por uma aranha radioactiva que o vai dotar de poderes especiais: força e agilidade sobre-humanas; o sentido de aranha (uma espécie de sexto sentido que o adverte dos perigos), capacidade de subir qualquer parede ou tecto (ao estilo das aranhas); dar saltos espectaculares; e, como Peter Parker é um “teen” génio, consegue conceber um lança teias que lhe permite deslocar-se pela cidade e utilizar para imobilizar os seus oponentes, quer se tratem de vulgares gangsters ou super-vilões que, de igual modo, ficaram gravados no imaginário social: Dr. Octopus; Duende Verde; o Lagarto; Kraven; Rhino, o Escorpião, etc.
Visto assim nada de novo, apenas mais um super-herói saído da mente brilhante do seu criador a juntar-se a tantos outros já em actividade nas páginas dos comics. Contudo, o que torna este herói tão especial aos olhos de miúdos e de graúdos é a possibilidade de estabelecimento de um paralelismo entre as aventuras do seu alter ego (Peter Parker) com a vida do leitor, tornando fácil a este último identificar-se com o herói aracnídeo, pois são tantos os traços psicológicos da personagem que o aproximam do comum dos mortais. Senão vejamos: Peter Parker é um jovem comum que por acidente recebe a dádiva dos superpoderes, é um rapaz tímido, gozado pelos colegas de liceu por ser marrão e um aluno genial, tem problemas em lidar com as raparigas, depois da morte do tio tem de cuidar da tia (doente do coração) e, simultaneamente, ser o ganha-pão da casa, razão pela qual se transforma em fotógrafo freelancer do Jornal Daily Mirror.
Resumindo, trata-se de um herói que tem problemas reais que o fazem descer do pedestal de divindade para “caminhar” na selva urbana como mais um de nós, preocupando-se em pagar a renda da casa, ir visitar a tia ao hospital, chegar a horas ao encontro com a namorada e, nas horas vagas evitar o descarrilamento de um trem, lutar contra ameaças alienígenas, super-vilões ou outros mestres do crime.
Em síntese Peter Parker/Homem-Aranha poderia ser qualquer um de nós se fossemos picados por uma aranha carregada de radioactividade. É esta dialéctica psicológica, este jogo de emoções, entre Peter e o seu alter ego, na tentativa de tentar conciliar a sua humanidade com a sua sobrehumanidade, que o tornam numa das mais brilhante criações do universo dos quadradinhos.
Os criadores do personagem souberam aumentar a verosimilhança do Homem-Aranha com a realidade, destaque-se o facto de o herói envelhecer ao longo dos anos, casar com Mary Jane Watson e ter um filho com esta, ocorrências que uma vez mais reforçam a já referida proximidade e um constante “piscar de olhos” ao leitor que facilmente se identifica com este grande herói do universo dos quadradinhos.   

sábado, 16 de abril de 2011

AS LEITURAS DA BANDA

A banda desenhada sempre foi uma forma de expressão em consonância com o seu tempo, com um sentido de observação profundo das mudanças sociais, das relações interpessoais, dos progressos da ciência, tomando partido e intervindo quer nos conflitos nacionais quer internacionais.
Ao lermos uma banda desenhada que atravesse grande parte do séc. XX, como por exemplo Tintin, constatamos na perfeição o progresso da humanidade e as ideias vigentes ao longo do tempo: a evolução e modernização dos diversos meios de transporte, os preconceitos, esteriótipos existentes em determinada época e em relação a determinados povos, as curiosidades científicas e os enigmas da altura (ex. ida à Lua o Yeti…).
Noutras BD`s vemos a utilização de heróis e super-heróis na luta contra a ameaça nazi ou contra regimes ditatoriais, reais ou fictícios, personalizados por vilões ou super-vilões, com o intuito de destruir ou dominar o mundo (ex. Capitão América e Bucky, Super-Homem, Batman, Buck Danny, etc), actuando os heróis como arquétipos (soma de aspirações do homem comum) e como catarse para as frustrações do dia-a-dia. Aliás, a banda desenhada de acção constitui por excelência o tipo mais comum de todos os géneros de BD existentes no mundo, não só a mais emblemática mas também aquela que mais motiva a compra por parte da grande maioria dos aficionados da nona arte, precisamente pelos mecanismos de evasão que proporciona aos comuns mortais, dando a possibilidade de, durante a leitura, vestirmos a pele de um ser supremo, intocável e invencível representado pelo herói.
Quando o cenário terrestre nos parece esgotado, eis que a BD nos transporta em naves intergalácticas para mundos extraterrestres, realidades paralelas, apresentando aos nossos olhos tecnologias, monstros e povos saídos do mais profundo delírio da imaginação humana.
A plasticidade caricatural conseguida pelas BD`s cómicas, os gags e as trapalhadas mais ou menos rebuscadas permitem, através do riso, desmistificar situações por vezes complicadas do nosso quotidiano (ex. ser multado pela polícia, levar uma repreensão do chefe, ser despedido ou até atropelado), dando a hipótese de rirmos de forma salutar daquilo que na vida real não tem nenhuma piada, permitindo abstrairmo-nos da nossa própria condição humana.
Por último refiro ainda o caso das BD`s “psicológicas”, onde a nona arte explora de forma inteligente e picaresca as relações humanas, os afectos, a sexualidade, o casamento, a relação entre as diferentes gerações, entre muitas outras fases da vida e do desenvolvimento humano. Temos exemplos paradigmáticos destes tipos de banda desenhada: Peanuts, Pogo, Calvin & Hobbes, Mafalda, Hagar, Andy Capp, etc., onde através do recurso à comicidade se mergulha profundo na “psique” humana.
Em suma através da BD conseguimos literalmente vermo-nos ao espelho.
Desde o seu aparecimento em finais do séc. XIX até aos dias de hoje, conseguimos encontrar, nos milhões de pranchas e vinhetas produzidas ao longo dos anos, um retrato fiel, aqui e ali deturpado (mas isso também faz parte da arte), da evolução humana nas suas múltiplas facetas e dimensões, constituindo um fresco de imagens tão vasto que, à semelhança de uma máquina do tempo, nos pode transportar para o passado, analisar o presente e projectar o nosso futuro.

terça-feira, 12 de abril de 2011

A BD, O CINEMA E A TV

A Banda Desenhada (BD) compõe-se por um universo de heróis, aventuras e cenários criados por talentosos desenhadores e argumentistas que deslumbraram diversas gerações e que tiveram o condão de possibilitar momentos da mais pura evasão, sonho, catarse e divulgação de arquétipos a variadas gerações de leitores.
A capacidade de mentalmente lermos as aventuras aos quadradinhos, inventarmos a voz do(s) nosso(s) herói(s), de estabelecermos a ligação entre o espaço e a acção decorrida entre duas vinhetas (elipse), as onomatopeias que povoam os balões e que recriam os mais diversos sons e a capacidade de transportarmos connosco essa aventura em estado puro no bolso de trás das calças para os espaços de lazer da nossa preferência, fizeram da BD algo único e irreproduzível para os outros Meios de Comunicação de Massas.
O cinema e a televisão cedo se aperceberam do potencial da BD, especialmente pelo impacto que esta última teve juntos dos públicos mais jovens, como terreno fértil para a “apropriação” quer de heróis quer de argumentos para o universo das imagens em movimento.
Nos primeiros tempos do cinema, quando os efeitos especiais ainda não eram dotados das capacidades e potencial que actualmente exibem, os heróis “clonados” da BD para o grande ecrã, consistiam em heróis baseados na força física e no poder dos seus socos, cujas aventuras se desenrolavam no velhinho planeta Terra, e que apenas necessitavam do recurso a alguns duplos para a execução das cenas mais arrojadas. Foi a época de Tarzan, Zorro, Batman e Robin, Fantasma, Príncipe Valente, entre tantos outros.
Com o desenvolvimento das tecnologias cinematográficas, já foram dados passos largos em direcção a mundos extraterrestres e a cenários mais elaborados, surgindo nas telas heróis como: Flash Gordon, Barbarella, Superman (que era colocado na posição horizontal quando voava e o cenário projectado criava a sensação de movimento), Dick Tracy, etc.
A partir do final dos anos 70 do século passado, graças ao já mencionado desenvolvimento dos efeitos especiais, o cinema começa a aceder de forma galopante a heróis cuja adaptabilidade ao grande ecrã seria algo de impensável nos primeiros três quartéis do século XX, refiro-me concretamente aos Universos Marvel e DC Comics importados dos comics dos EUA, em que a aplicação de efeitos especiais criados e aprimorados pelos computadores, permitiram realizar o que antes era inconcebível, recriando algo que até então só podia ser vislumbrado no universo dos quadradinhos: Os saltos e as teias do Homem-Aranha; O voo e a força do Super-Homem; A versatilidade dos membros do Quarteto Fantástico; As garras de Wolverine; A armadura do Homem de Ferro; O Batmobile e a planóplia de gadjets do Batman; Os raios ópticos do Ciclope; A habilidade de alterar os elementos da Ororo…isto já para não falar de heróis da velha Europa como Astérix, Obélix ou Tintin (que vai surgir em breve nos cinemas pela mão de Steven Spielberg).
Apesar da interpenetrabilidade dos mundos da BD e do Cinema/TV e da espectacularidade visual com que estes já nos conseguem surpreender, existe algo muito próprio da Banda Desenhada que é inacessível ao mundo das imagens em movimento, que se forma na dialéctica que o leitor consegue criar com a vinheta/prancha e no dinamismo que consegue criar com a imagem estática, na relação que estabelece com o herói (uma espécie de clientelismo), com os cenários onde este se move e decorre a acção, que no fundo é animada pelo olhar do leitor através do seu diálogo com o papel impresso.
Quantas vezes não ficámos desiludidos com a transposição dos nossos heróis de papel para o ecrã? A desilusão pode vir, por exemplo, da discrepância física do herói da fita em relação ao do papel (ex. Michael Keaton, um actor franzino e de baixa estatura, no papel de Batman); da impossibilidade de recriar a plasticidade ou comicidade dos heróis de papel para os do cinema (apesar dos avanços da tecnologia); ou ainda da pobreza dos cenários cinematográficos idealizados para terreno onde se move o herói. Tudo isto é notório porque ao lermos uma BD temos nós próprios, a partir da história que nos é apresentada, a possibilidade de realizarmos o nosso próprio “filme” pois interpretamos as imagens e descodificamos os conteúdos à nossa própria maneira e ao discorrer da nossa imaginação, e isso nenhum realizador de cinema, nem nenhum efeito especial, consegue reproduzir.

domingo, 10 de abril de 2011

O mercado nacional da BD

O mercado nacional, no que respeita à publicação de banda desenhada (BD) Franco-Belga, continua a não acertar com os íntimos desejos dos bedéfilos. Continuamos a assistir ao encetar de séries que não têm a devida sequência ou onde a mesma se encontra enormemente desfasada em termos temporais, tornando impossível conhecer a maturação do grafismo do autor e a evolução psicológica dos personagens principais e secundárias.
Quantas séries em álbum já foram iniciadas cujo final (ou a respectiva continuação) ainda não conheceu a luz do dia? Quantos heróis em quadradinhos existem nas estantes dos coleccionadores e nos escaparates das livrarias, que desconhecem a forma como se irão livrar dos golpes, das ciladas e das invenções maquiavélicas que os respectivos vilões lhes vão preparar? A resposta é: MUITOS.
As editoras sucedem-se (não vou citar nomes) mas o panorama não muda…séries por concluir, leitores defraudados acrescento eu. Dizem que as histórias em álbum muitas vezes não têm sequência porque os direitos das mesmas foram adquiridos por outras editoras nacionais (algumas até já faliram) e como tal não é possível assegurar a continuação, algo que considero inaceitável e ofensivo para quem começou a coleccionar as séries sem sequência (ex. Thorgal, Jeremiah, Adéle Blanc-Sec, Lefranc, Tanguy e Laverdure, Buddy Longway, Largo Winch, XIII, Peter Pan, isto só para relembrar alguns dos há muito esquecidos e que constituem heróis/séries de top nos seus países de origem).
Na minha opinião, as editoras nacionais que se dedicam à BD, numa lógica de potenciação de lucros e de públicos, iniciam várias séries formato álbum relativas a diferentes heróis, para ver quais são os que geram maiores receitas e aceitação por parte dos leitores, depois, seguindo uma lógica puramente economicista vão “esquecendo” as que não têm tanto sucesso comercial (que não terão o respectivo “à suivre”), defraudando expectativas a quem as adquiriu e lhes soube dar o devido valor. Não observo (pelo menos não conheço) estudos sérios promovidos pelas editoras, para avaliar quais os heróis e séries de BD mais queridos/pretendidos pelo público da 9ª Arte? Quais as séries iniciadas que os leitores pretendem ver concluídas? Quem compra BD em Portugal? Quantos livros lê em média por mês? Quanto gastam por mês em BD e quanto estariam dispostos a gastar caso o mercado satisfizesse as suas necessidades literárias? Quem é o leitor de BD? Qual a sua faixa etária e nível de escolaridade? Qual o formato preferido das edições: álbum, revista? São apenas algumas das muitas questões cujas respostas deveriam ser procuradas pelas editoras nacionais de BD, antes da publicação de séries de banda desenhada. Poderão argumentar que tais estudos de mercado são caros mas por certo sairá mais oneroso ficar com os livros em stock (e mais tarde vender ao desbarato) e criar leitores descontentes que vão pensar várias vezes antes de encetar a colecção X ou Y. Outra hipótese consistiria em apostar principalmente em séries denominadas “One Shot” (que iniciam e terminam apenas num álbum), mas esta opção condicionaria o acesso ao conhecimento e divulgação de heróis e séries de enorme qualidade que se desenvolvem ao longo de vários álbuns.
Sei que o mercado editorial da BD nacional em nada é comparável, por exemplo, ao Francês ou Espanhol, mas se continuarmos nesta senda qualquer dia, quando entrarmos numa livraria portuguesa, só conseguiremos encontrar nas estantes os álbuns dos heróis que toda a gente conhece e já leu, e que continuam a constituir pela enésima vez as apostas das editoras, como são os casos de Astérix, Tintin, Lucky Luke, Spirou, Blake & Mortimer e que, sem margem para dúvida constituem um óptimo cartão de visita para a 9ª Arte …mas, e os outros?!!
O universo da BD é diversificado e rico, é importante dar a conhecê-lo de uma forma séria, sem hiatos ou quebras nas publicações que vão sendo iniciadas e onde o sucesso das editoras no mercado irá ter de ser baseado na recriação de uma imagem credível perante o consumidor de BD, isto para que não se verifique uma descontinuidade entre a oferta e a procura, que acaba por ser compensada pela compra das obras na sua língua original, hipotecando a chance de construção de um mercado nacional da 9ª Arte mais forte e sustentável.

Aventura ao Quadrado

O Blog Aventura ao Quadrado é destinado a todos os amantes, coleccionadores, estudiosos e curiosos da Banda Desenhada (BD), igualmente conhecida por Nona Arte.
Nele poderão vir a encontrar pequenos artigos/reflexões pessoais sobre: Heróis da BD; História da BD; Desenhadores e Argumentistas; Relação da BD com os outros Meios de Comunicação de Massas; Mercado Editorial da BD; assim como todo o tipo de curiosidades relacionadas com a Nona Arte, com especial incidência na banda desenhada Franco-Belga e nos Comics dos EUA.