O mercado nacional, no que respeita à publicação de banda desenhada (BD) Franco-Belga, continua a não acertar com os íntimos desejos dos bedéfilos. Continuamos a assistir ao encetar de séries que não têm a devida sequência ou onde a mesma se encontra enormemente desfasada em termos temporais, tornando impossível conhecer a maturação do grafismo do autor e a evolução psicológica dos personagens principais e secundárias.
Quantas séries em álbum já foram iniciadas cujo final (ou a respectiva continuação) ainda não conheceu a luz do dia? Quantos heróis em quadradinhos existem nas estantes dos coleccionadores e nos escaparates das livrarias, que desconhecem a forma como se irão livrar dos golpes, das ciladas e das invenções maquiavélicas que os respectivos vilões lhes vão preparar? A resposta é: MUITOS.
As editoras sucedem-se (não vou citar nomes) mas o panorama não muda…séries por concluir, leitores defraudados acrescento eu. Dizem que as histórias em álbum muitas vezes não têm sequência porque os direitos das mesmas foram adquiridos por outras editoras nacionais (algumas até já faliram) e como tal não é possível assegurar a continuação, algo que considero inaceitável e ofensivo para quem começou a coleccionar as séries sem sequência (ex. Thorgal, Jeremiah, Adéle Blanc-Sec, Lefranc, Tanguy e Laverdure, Buddy Longway, Largo Winch, XIII, Peter Pan, isto só para relembrar alguns dos há muito esquecidos e que constituem heróis/séries de top nos seus países de origem).
Na minha opinião, as editoras nacionais que se dedicam à BD, numa lógica de potenciação de lucros e de públicos, iniciam várias séries formato álbum relativas a diferentes heróis, para ver quais são os que geram maiores receitas e aceitação por parte dos leitores, depois, seguindo uma lógica puramente economicista vão “esquecendo” as que não têm tanto sucesso comercial (que não terão o respectivo “à suivre”), defraudando expectativas a quem as adquiriu e lhes soube dar o devido valor. Não observo (pelo menos não conheço) estudos sérios promovidos pelas editoras, para avaliar quais os heróis e séries de BD mais queridos/pretendidos pelo público da 9ª Arte? Quais as séries iniciadas que os leitores pretendem ver concluídas? Quem compra BD em Portugal? Quantos livros lê em média por mês? Quanto gastam por mês em BD e quanto estariam dispostos a gastar caso o mercado satisfizesse as suas necessidades literárias? Quem é o leitor de BD? Qual a sua faixa etária e nível de escolaridade? Qual o formato preferido das edições: álbum, revista? São apenas algumas das muitas questões cujas respostas deveriam ser procuradas pelas editoras nacionais de BD, antes da publicação de séries de banda desenhada. Poderão argumentar que tais estudos de mercado são caros mas por certo sairá mais oneroso ficar com os livros em stock (e mais tarde vender ao desbarato) e criar leitores descontentes que vão pensar várias vezes antes de encetar a colecção X ou Y. Outra hipótese consistiria em apostar principalmente em séries denominadas “One Shot” (que iniciam e terminam apenas num álbum), mas esta opção condicionaria o acesso ao conhecimento e divulgação de heróis e séries de enorme qualidade que se desenvolvem ao longo de vários álbuns.
Sei que o mercado editorial da BD nacional em nada é comparável, por exemplo, ao Francês ou Espanhol, mas se continuarmos nesta senda qualquer dia, quando entrarmos numa livraria portuguesa, só conseguiremos encontrar nas estantes os álbuns dos heróis que toda a gente conhece e já leu, e que continuam a constituir pela enésima vez as apostas das editoras, como são os casos de Astérix, Tintin, Lucky Luke, Spirou, Blake & Mortimer e que, sem margem para dúvida constituem um óptimo cartão de visita para a 9ª Arte …mas, e os outros?!!
O universo da BD é diversificado e rico, é importante dar a conhecê-lo de uma forma séria, sem hiatos ou quebras nas publicações que vão sendo iniciadas e onde o sucesso das editoras no mercado irá ter de ser baseado na recriação de uma imagem credível perante o consumidor de BD, isto para que não se verifique uma descontinuidade entre a oferta e a procura, que acaba por ser compensada pela compra das obras na sua língua original, hipotecando a chance de construção de um mercado nacional da 9ª Arte mais forte e sustentável.
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