sábado, 16 de abril de 2011

AS LEITURAS DA BANDA

A banda desenhada sempre foi uma forma de expressão em consonância com o seu tempo, com um sentido de observação profundo das mudanças sociais, das relações interpessoais, dos progressos da ciência, tomando partido e intervindo quer nos conflitos nacionais quer internacionais.
Ao lermos uma banda desenhada que atravesse grande parte do séc. XX, como por exemplo Tintin, constatamos na perfeição o progresso da humanidade e as ideias vigentes ao longo do tempo: a evolução e modernização dos diversos meios de transporte, os preconceitos, esteriótipos existentes em determinada época e em relação a determinados povos, as curiosidades científicas e os enigmas da altura (ex. ida à Lua o Yeti…).
Noutras BD`s vemos a utilização de heróis e super-heróis na luta contra a ameaça nazi ou contra regimes ditatoriais, reais ou fictícios, personalizados por vilões ou super-vilões, com o intuito de destruir ou dominar o mundo (ex. Capitão América e Bucky, Super-Homem, Batman, Buck Danny, etc), actuando os heróis como arquétipos (soma de aspirações do homem comum) e como catarse para as frustrações do dia-a-dia. Aliás, a banda desenhada de acção constitui por excelência o tipo mais comum de todos os géneros de BD existentes no mundo, não só a mais emblemática mas também aquela que mais motiva a compra por parte da grande maioria dos aficionados da nona arte, precisamente pelos mecanismos de evasão que proporciona aos comuns mortais, dando a possibilidade de, durante a leitura, vestirmos a pele de um ser supremo, intocável e invencível representado pelo herói.
Quando o cenário terrestre nos parece esgotado, eis que a BD nos transporta em naves intergalácticas para mundos extraterrestres, realidades paralelas, apresentando aos nossos olhos tecnologias, monstros e povos saídos do mais profundo delírio da imaginação humana.
A plasticidade caricatural conseguida pelas BD`s cómicas, os gags e as trapalhadas mais ou menos rebuscadas permitem, através do riso, desmistificar situações por vezes complicadas do nosso quotidiano (ex. ser multado pela polícia, levar uma repreensão do chefe, ser despedido ou até atropelado), dando a hipótese de rirmos de forma salutar daquilo que na vida real não tem nenhuma piada, permitindo abstrairmo-nos da nossa própria condição humana.
Por último refiro ainda o caso das BD`s “psicológicas”, onde a nona arte explora de forma inteligente e picaresca as relações humanas, os afectos, a sexualidade, o casamento, a relação entre as diferentes gerações, entre muitas outras fases da vida e do desenvolvimento humano. Temos exemplos paradigmáticos destes tipos de banda desenhada: Peanuts, Pogo, Calvin & Hobbes, Mafalda, Hagar, Andy Capp, etc., onde através do recurso à comicidade se mergulha profundo na “psique” humana.
Em suma através da BD conseguimos literalmente vermo-nos ao espelho.
Desde o seu aparecimento em finais do séc. XIX até aos dias de hoje, conseguimos encontrar, nos milhões de pranchas e vinhetas produzidas ao longo dos anos, um retrato fiel, aqui e ali deturpado (mas isso também faz parte da arte), da evolução humana nas suas múltiplas facetas e dimensões, constituindo um fresco de imagens tão vasto que, à semelhança de uma máquina do tempo, nos pode transportar para o passado, analisar o presente e projectar o nosso futuro.

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