terça-feira, 12 de abril de 2011

A BD, O CINEMA E A TV

A Banda Desenhada (BD) compõe-se por um universo de heróis, aventuras e cenários criados por talentosos desenhadores e argumentistas que deslumbraram diversas gerações e que tiveram o condão de possibilitar momentos da mais pura evasão, sonho, catarse e divulgação de arquétipos a variadas gerações de leitores.
A capacidade de mentalmente lermos as aventuras aos quadradinhos, inventarmos a voz do(s) nosso(s) herói(s), de estabelecermos a ligação entre o espaço e a acção decorrida entre duas vinhetas (elipse), as onomatopeias que povoam os balões e que recriam os mais diversos sons e a capacidade de transportarmos connosco essa aventura em estado puro no bolso de trás das calças para os espaços de lazer da nossa preferência, fizeram da BD algo único e irreproduzível para os outros Meios de Comunicação de Massas.
O cinema e a televisão cedo se aperceberam do potencial da BD, especialmente pelo impacto que esta última teve juntos dos públicos mais jovens, como terreno fértil para a “apropriação” quer de heróis quer de argumentos para o universo das imagens em movimento.
Nos primeiros tempos do cinema, quando os efeitos especiais ainda não eram dotados das capacidades e potencial que actualmente exibem, os heróis “clonados” da BD para o grande ecrã, consistiam em heróis baseados na força física e no poder dos seus socos, cujas aventuras se desenrolavam no velhinho planeta Terra, e que apenas necessitavam do recurso a alguns duplos para a execução das cenas mais arrojadas. Foi a época de Tarzan, Zorro, Batman e Robin, Fantasma, Príncipe Valente, entre tantos outros.
Com o desenvolvimento das tecnologias cinematográficas, já foram dados passos largos em direcção a mundos extraterrestres e a cenários mais elaborados, surgindo nas telas heróis como: Flash Gordon, Barbarella, Superman (que era colocado na posição horizontal quando voava e o cenário projectado criava a sensação de movimento), Dick Tracy, etc.
A partir do final dos anos 70 do século passado, graças ao já mencionado desenvolvimento dos efeitos especiais, o cinema começa a aceder de forma galopante a heróis cuja adaptabilidade ao grande ecrã seria algo de impensável nos primeiros três quartéis do século XX, refiro-me concretamente aos Universos Marvel e DC Comics importados dos comics dos EUA, em que a aplicação de efeitos especiais criados e aprimorados pelos computadores, permitiram realizar o que antes era inconcebível, recriando algo que até então só podia ser vislumbrado no universo dos quadradinhos: Os saltos e as teias do Homem-Aranha; O voo e a força do Super-Homem; A versatilidade dos membros do Quarteto Fantástico; As garras de Wolverine; A armadura do Homem de Ferro; O Batmobile e a planóplia de gadjets do Batman; Os raios ópticos do Ciclope; A habilidade de alterar os elementos da Ororo…isto já para não falar de heróis da velha Europa como Astérix, Obélix ou Tintin (que vai surgir em breve nos cinemas pela mão de Steven Spielberg).
Apesar da interpenetrabilidade dos mundos da BD e do Cinema/TV e da espectacularidade visual com que estes já nos conseguem surpreender, existe algo muito próprio da Banda Desenhada que é inacessível ao mundo das imagens em movimento, que se forma na dialéctica que o leitor consegue criar com a vinheta/prancha e no dinamismo que consegue criar com a imagem estática, na relação que estabelece com o herói (uma espécie de clientelismo), com os cenários onde este se move e decorre a acção, que no fundo é animada pelo olhar do leitor através do seu diálogo com o papel impresso.
Quantas vezes não ficámos desiludidos com a transposição dos nossos heróis de papel para o ecrã? A desilusão pode vir, por exemplo, da discrepância física do herói da fita em relação ao do papel (ex. Michael Keaton, um actor franzino e de baixa estatura, no papel de Batman); da impossibilidade de recriar a plasticidade ou comicidade dos heróis de papel para os do cinema (apesar dos avanços da tecnologia); ou ainda da pobreza dos cenários cinematográficos idealizados para terreno onde se move o herói. Tudo isto é notório porque ao lermos uma BD temos nós próprios, a partir da história que nos é apresentada, a possibilidade de realizarmos o nosso próprio “filme” pois interpretamos as imagens e descodificamos os conteúdos à nossa própria maneira e ao discorrer da nossa imaginação, e isso nenhum realizador de cinema, nem nenhum efeito especial, consegue reproduzir.

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