Quem já não ouviu falar da poção mágica, de romanos habituados a levar tabefes, da aldeia dos gauleses insubmissos ao poder de Roma, de um gordo fabricante de menires dono de um cão com a mania da ecologia e de um pequeno guerreiro de longos bigodes loiros? Claro que todos já entenderam que me refiro às aventuras de Astérix o Gaulês.
Astérix nasceu em 1959 na revista francesa “Pilote”, tendo saído o primeiro álbum “Astérix, o Gaulês” em 1961. Criado por René Goscinny (falecido em 1977) e por Albert Uderzo, Astérix foi um herói que muito cedo (1965) viria a atingir fama mundial e o estatuto de coqueluche no mundo da BD, pois para além dos mais de 200 milhões de albúns publicados e traduzidos em todo o mundo, há que contar com várias longas metragens e desenhos animados que levaram o seu nome e os dos seus criadores além do imaginável.
Astérix possui um espírito aventureiro e uma audácia que, sem dúvida, superam em muito a sua baixa estatura e que o impelem a percorrer o globo terrestre em busca de emoções fortes, mas onde o final é sempre feliz e exuberantemente festejado com o inevitável banquete na aldeia. Astérix surge-nos ao longo das suas aventuras como um personagem efervescente, arrebatado (mas prudente) e bom analista de situações difíceis para as quais consegue encontrar sempre as melhores soluções, graças à sua astúcia e inteligência superiores. Devido à poção mágica, o nosso herói é um ser invencível, que não recusa o uso da força de todas as vezes em que a sua inteligência e paciência se mostram ineficazes. É ainda um patriota exaltado, amigo dos seus amigos e possuidor de um conservadorismo exacerbado que se traduz na predilecção por aquilo que é gaulês. Em suma pode-se dizer que é uma fiel transposição do francês médio.
Por tanto falar de Astérix, é importante não esquecer Obélix, o eterno companheiro de aventuras de Astérix, pois não se pode falar de um esquecendo o outro e vice-versa, tratando-se até mesmo de um herói duplo neste caso. Já vimos que é Astérix quem desencadeia a acção, é ele quem decide, em última análise, se se lançarão ou não em determinada aventura, mas é Obélix que lhe dá sabor, imprevisto e excesso, acabando por suplantar o seu companheiro e disputar com ele o papel principal. São características de Obélix a sua incrível força que lhe advém do facto de ele ter caído dentro do caldeirão da poção mágica quando era bebé, a sua enorme susceptibilidade (especialmente quando lhe chamam gordo), vaidade e inveja, que no entanto não impedem de ser afável e de bom coração. Contudo, prima também pela sua ingenuidade (infantil) e falta de clarividência de ideias, pois quase sempre age de forma impulsiva e irreflectida.
Dentro do universo da BD é importante referir ainda que existem bandas desenhadas para cada grupo etário a par com bandas desenhadas mais genéricas, para todos os grupos de idade, onde cada leitor se posiciona na sua leitura consoante a sua maturidade etária e cultural, tal como acontece com Astérix. Nas suas aventuras a compreensão da narrativa deriva do plano físico-intelectual em que o leitor se encontra. Desta forma podemos constatar que uma criança de 11 anos, ao tomar contacto com Astérix, apenas terá sensibilidade para captar o desenho em si e o humor que algumas situações podem desencadear, ao passo que um adulto estará mais apto para compreender os trocadilhos, as piadas indirectas, as alusões históricas e as transposições de situações da época actual para a antiguidade onde se desenrola a acção (engarrafamentos, poluição…). Por tudo isto (e não só), recomendo vivamente a (re)leitura deste expoente máximo da Nona Arte.
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