O ano de 1904 foi testemunha do nascimento de um dos expoentes máximos dos desenhadores da escola Franco-Belga: Edgar Pierre Jacobs.
Jacobs iniciou a sua carreira como assistente de Hergé, vindo a colaborar na realização de três conhecidas aventuras de Tintin: “O Ceptro de Otokar”, “O Lótus Azul” e “As Sete Bolas de Cristal”. Para realçar a versatilidade deste “gigante” da Banda Desenhada, assinale-se que, antes de dedicar a sua vida à nona arte, Jacobs tentou carreira no bel canto, chegando a ocupar a posição de barítono na Ópera de Lille (França).
A sua principal criação consistiu numa dupla de heróis – Blake & Mortimer – que se tornou famosa pela prodigiosa fantasia que Jacobs conseguiu transfigurar em todas as aventuras por eles vividas.
Os dois heróis apresentam-se como típicos cidadãos britânicos: Ambos frequentam um gentlemen`s club, sendo que Blake é capitão dos serviços secretos da Scotland Yard e Mortimer, o principal dinamizador das aventuras, um carismático cientista criador do célebre “Espadão” (ler Vol. I e II de “O Segredo do Espadão”).
O sucesso deste duo baseia-se essencialmente na versatilidade do seu criador, que desde sempre primou pelo seu rigor, preciosismo e sofisticação que conseguiu implementar nas aventuras de Blake & Mortimer , aproveitando elementos retirados de lendas da actualidade que sempre seduziram a imaginação dos leitores e do público em geral: as pirâmides do Egipto, a Atlântida, a máquina de viajar no tempo, os extraterrestres, ou a robótica. Podemos afirmar que a imaginação fervilhante de Jacobs conseguiu superar a geografia, o tempo, a arqueologia e o futurismo, conseguindo a imortalidade em marcos da nona arte como “ O Segredo do Espadão I e II” (1950 e 1953); “O Mistério da Grande Pirâmide I e II (1954 e 1955); “A Marca Amarela” (1956); “O Enigma da Atlântida” (1957); SOS Meteoros (1959), onde o nome do nosso país fica associado a um dos mais famosos albúns de todos os tempos da BD; “A Armadilha Diabólica” (1962); “O Caso do Colar” (1967) e “As Três Fórmulas do Professor Sato” (1977) também em dois volumes, sendo o último deles concluído por Bob de Moor, a partir de esboços de Jacobs, em virtude da morte deste último em 1987. Refira-se que o grande espaçamento temporal entre as diversas aventuras criadas por este autor, nada tem a ver com ociosidade mas sim com o rigor, pesquisa e preciosismo que impunha à sua obra, daí a sua enorme qualidade em detrimento da quantidade de publicações.
Em homenagem àquele que considero o maior entre os maiores génios do universo da BD, deixo a descrição que este realizou pela sua própria mão, do perfil destes dois heróis que o imortalizaram: “Mortimer é franco, leal, impulsivo, desdenhando qualquer tipo de compromissos. Intransigente em tudo o que diz respeito à honra e justiça, acontece muitas vezes que esse carácter efervescente e o seu modo de ir direito às coisas o colocam em maus lençóis. Ao contrário de Mortimer, Blake é o símbolo da fleuma britânica. Comparado com o seu amigo, parece frio e distante, dono e senhor das suas reacções. Mas esta insensibilidade aparente fica apenas a dever-se ao seu horror atávico a toda e qualquer manifestação pública dos seus sentimentos”.
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